quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A Rainha vale mais?

O xadrez é uma atividade que aprecio. Permitindo o Senhor dos Mundos, meus filhos aprenderão desde cedo a jogar xadrez, e terei o prazer de perder para eles (se bem que, para isso, não precisa muita coisa). Quero que todos na minha casa joguem xadrez, todos. Quero ter a alegria de passar dias desafiando e sendo desafiado pelas crianças e pela Menininha Ruiva. Sei não, mas acho que serei um pai chato. Acho que meus filhos irão se divertir muito mais com o tio deles, que é divertido e joga bola. Droga de vida.

Uma coisa me assusta na arte enxadrista: o rei é maior que tudo, e dele depende plenamente o jogo, de modo que a atividade se perde por completo sem sua presença. Esse regicídio (ou a persecução desse regicídio), mesmo que legítimo numa sociedade medieval/patriarcal/oriental, não combina com nossa realidade, com a nossa visão contemporânea: o Brasil, que não teve presidentes legítimos por vinte anos, não ficou sem jogar na política – muito pelo contrário, colocou generais superpoderosos, muito semelhantes às rainhas do tabuleiro.

Eloá, a menina encarcerada de Santo André, precisava ser mantida em incolumidade: eis o rei da situação. A rainha era fazer-justiça-e-prender-o-cara-mau-e-bem-mais-velho-que-fazia-a-menininha-refém. Um jogador muito novato (que nem lembra como é o L do cavalo) defenderia o rei, deixando até que a rainha fosse capturada, se fosse o caso. Infelizmente, nossos governantes não jogam xadrez, e preferiram que a senhorita fosse baleada a deixar de “fazer justiça”; como não creio que nossos mandatários não saibam se mover no tabuleiro, será que não atribuíram valores distorcidos às peças? Será que a rainha, peça alta e robusta, com inúmeros movimentos e muita versatilidade, será que ela não ludibriou o competidor, que dispensou o fraco rei, imponente e limitado?

Malba Tahan, o homem que calculava, dizia que a rainha era o próprio povo, que tinha muitos poderes, mas que dependia do soberano. Em nosso país, “todo o poder emana do povo”, conforme nossa própria Constituição. Sob a óptica do esporte do Mequinho, é preferível perder a rainha e vencer o jogo, salvando o monarca; daqui me pego a refletir: será que o povo é visto por nós como “rei” (que tem dificuldades para locomoção, mas é o mais importante do seu meio) ou a nação é tida como “rainha”, que, muito embora seja deveras importante, é apenas uma peça de combate?

(escrito na perna e sem revisão alguma)

2 comentários:

Lúcia Nikkel disse...

Eita! Que profundidade hein?
Nem parece escrito 'nas coxas', como se diz por aqui.
Eu sei jogar xadrez e meu marido também sabe, mas nós não jogamos, rsrsrsrs.
Mas já joguei com meu sogro, e perdi TODAS as vezes... talvez vc conseguisse ganhar de mim!
O caso da menina Eloá é muito revoltante, resolvi deixar de lado, pq não vai adiantar nada ficar me estressando... quase escrevi um post sobre isso, talvez ainda escreva, vamos ver.
Abração, guri!!!

Lúcia Nikkel disse...

Escrevi sobre o caso!
Ah, vc ganhou um oscar, passa lá no meu blog pegar! É 'simprinho' mas é de coração!
bjs