sábado, 11 de outubro de 2008

Sonhos

O que é um sonho? Um desejo surreal para a vida real ou é um descolamento real de uma vida surreal? Anos de terapia podem ajudar, mas não creio que respondam plenamente o que questiono.

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Pensava, hoje à tarde, em Pigmalião: o cidadão começou a notar os defeitos das mulheres e se encheu com isso; preferiu, assim, sonhar com uma mulher perfeita, esculpindo-a para si, e rogando a Afrodite que tal estátua se tornasse uma amante real. Foi o que houve: a deusa do amor presenteou o artífice, dando ao mármore o fôlego vivente, e puderam-se unir em casamento.

Que riqueza de acepções há nesse indivíduo e nessa história! O ser humano é incompleto por natureza, e tão incompleto é que, para fugir dessa realidade, procura alguém que supra as necessidades; ocorre, contudo, que essa busca pode se tornar longa e difícil, a ponto de muitos desistirem no meio do caminho. Outros, entretanto, resolvem dar solução própria às suas pendências, lançando mão dos recursos próximos disponíveis para seu hedonismo; não sendo isso sempre possível, recorrem à divindade, num ato de re-ligação (e, nisso, frisa-se a idéia de religião) visando à auto-satisfação e, nesse encontro metafísico, pretende-se ao menos manipular o supraempírico (quando dominar fica muito distante das limitações).

Digredindo, lembro de Martinho da Vila (que, embora não muito erudito, compôs o tema de Pigmalião): para já quem teve “mulheres de todas as cores / de várias idades, de muitos amores” e em nenhuma delas encontrou a felicidade, somente buscando fora da humanidade a solução dos seus problemas.

Não foi a estátua que ganhou vida, mas foi a divindade que penetrou num desejo de um mortal. Contudo, uma estátua e um sentimento são eternos; uma mulher é uma mortal, finita e limitada. Perdi contato com Pigmalião e Galatéia, sua senhora: sei que tiveram Pafos, um menino, e assim ficou. Se ela ficou com estrias, celulite ou flacidez, a mitologia não contou. Se a coisa fosse puramente divina, ela teria a chance de ficar perfeita; mas não dá pra esquecer que, quando o homem põe a mão nas coisas, sempre há uma imperfeição. Do Criador eram o mármore e a alma, mas a forma era humana. Dá pra ser, depois disso, perfeita?

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“Não recebemos as respostas que queremos porque não fazemos as perguntas necessárias”, disse-nos o professor em sala de aula. Temos, todos nós, as soluções às nossas carências: os sonhos. Neles, excluímos todas as possibilidades tangíveis e colocamos à sorte aquilo que não nos está nesse escopo. Chega Deus (ou o tempo, ou a sorte, ou o seja-lá-qual-motivo-for) e nos dá o que ansiamos; será que basta?

Enfim, sonhar é do ser humano. Se certo ou errado, não interessa. Persigamos esse alvo. Só uma coisa pode ser maior a uma pessoa que atingir um alvo: buscá-lo.

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Se os homens dessem mais atenção à colocação dos problemas em termos reais e objetivos, do que costumam dar às teorias, haveria menos desentendimento e um maior esforço de colaboração, de compreensão e de paz. O esforço no sentido de colocar os problemas em termos reais e objetivos exige honestidade de propósitos, sinceridade, espírito de dedicação, compromisso com a verdade antes de tudo, em lugar da luta cega pelos interesses imediatos. Por isso, ouso fazer esse convite: procuremos as soluções que se esforçam por colocar os problemas como eles devem ser colocados, em lugar de colocar os problemas de modo que eles caibam nas soluções que já trazemos conosco antecipadamente. Somos problemas à procura de soluções: a solução primeira é tomar consciência dos problemas, dos problemas que nós somos, dos problemas que nós pomos, dos problemas que se põem para nós, dos problemas que devemos descobrir diante de nós. É mais fácil construir uma teoria do que formular com precisão um problema – eis a questão. E por isso dizemos que as soluções estão à procura dos problemas.

[MENDONÇA, Eduardo Prado de. O mundo precisa de filosofia. 7.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1984, p.73.]

2 comentários:

Lúcia Nikkel disse...

Ao primarmos pela simplicidade temos mais chances de encontrar respostas para as complicadas questões da vida.
Mas 'para quê simplificar que dá para complicar', não é?
Bjão

Lúcia Nikkel disse...

Meu novo endereço: http://lucia-inthesky.blogspot.com/