sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebra dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.

(João Cabral de Melo Neto)


+ * + * +

Aos amigos blogueiros e escritores, meu carinho por cozinhar a sopa das letrinhas. :)

Bom findi a todos!

3 comentários:

Lúcia disse...

Que chique, Sami! Amei!
Bjins

Cris Andersen disse...

É, eu bem que dispenso algumas pedrinhas
;)

Beijão querido

Jairo disse...

Incrível! Já conhecia a poesia, mas fazia tempo que estava esquecida. Valeu!