terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Discussões de paternidade

Processos de investigação de paternidade lotam as prateleiras dos foros. Todo mundo tem curiosidade de assistir esse procedimento judicial, que corre em segredo de justiça para preservar as partes. Sei lá, tenho a estapafúrdia vontade de propor que essas ações deveriam passar na TV depois da novela das 8 (que começa às 9 e tralalá), pois o povo adora assistir um barraco forte.

Para integralizar meu currículo acadêmico, preciso assistir algumas audiências, dentre elas, tchan!, investigações de paternidade. Foi o que fiz um dia desses...

+ * + * +

Entrei na sala, pedi permissão para Exu o juiz, a que acolheu meu pedido de bom grado. Assim como eu, ele foi estudante e sabe as agruras da Academia. Conversa vai, conversa vem, audiências vão passando e chega a hora da minha anelada Sessão de Exorcismo Audiência de Conciliação em Ação de Reconhecimento de Paternidade. Assentei-me em posição compenetrada, caneta à mão, agenda ao colo, óculos à ponta do nariz. Com minha cara de judeu Harry Potter Maurice Gibb Renato Russo estudante esperto, acompanhei de soslaio a entrada dos jovens, com a típica mirada por cima dos aros que só conhece quem usa os olhos de vidro.

À direita de Deus Pai Todo-Poderoso do juiz, a mãe e autora do pedido, esquálida como uma flauta doce e feia como um pesadelo, com o cabelo a parecer o sovaco do coisa-ruim; à esquerda, um cidadão que lutava taco-a-taco com a senhorita, senhora ou algo-que-o-valha, com uma tatuagem numa das falanges que me chamou a atenção: o moço já viu-o-sol-nascer-quadrado.

Enfim, começa o jogo o fandango a audiência. Senhor Fulano, o senhor reconhece ser o pai do Beltrano, filho desse canhão dessa senhora? (não posso crer que o magistrado não haja pensado em dizer isso). Sim, Santidade, ele é meu filho (sim, o cara disse isso).

O cara, bem na boa, reconheceu que é pai do piá e que pode ajudar com $90 mensais. Legal. Daí vem a parte boa: Santidade, eu posso visitar de quando em quando o meu guri? Só quem é gaúcho sabe qual a essência de chamar um filho de guri: é um misto de ternura e proteção, carinho e vigor, amor e machismo. Meu pai me chama até hoje de guri, e enche a boca para falar aos amigos e vizinhos dele que o guri mais velho dele será um doutor advogado. Enfim, aquilo me deu esperança: o cara vai ser um pai legal, coisa e tal, e vai dar ao bebê de poucos meses aquelo carinho que convém que o infante receba.

A energúmena reage. Não deixo meu filho com esse drogado! A partir daí, a audiência virou um episódio do Ratinho, só faltando voo de objetos não identificados às cabeças dos querelantes. Cada um se increpava dos mais variados artifícios, culminando com o fato dela não querer que a criança saísse dos olhos dela, devendo o genitor passear numa pracinha detronte à casa em que vive, seguindo ela às costas dos dois; ele não quis. A propósito, ele queria que ela levasse o menino até à casa dele, pois disse que a virago o jurou de morte, avisando os capangas do bairro para furarem Fulano caso lá chegasse. A versão barroca da Feiura (sem acento por razão da Reforma) disse que era mentira, que ele era latrocida, que era viciado em crack e que iria mandar matá-lo. Enfim, nenhum dos dois era trigo limpo.

Tudo (quase) bem. Achei que a coisa não pioraria. Até que a diaba me fala se ele me atrasar a pensão, não deixo pegar a criança. Bah! A mulher acha que o piá é mercadoria, que só se entrega mediante pagamento! Se ela quer apenas dinheiro, não peça um pai ao seu filho, apenas um financiador; que não procure, mas um boa-pinta disposto a sustentar o cramulhão.

Nunca vi um juiz mijar uma mulher com tamanha fúria. Nunca. Ele mijou a mulher. O Promotor, representando o Ministério Público, mijou a mulher. A Defensora Pública mijou a mulher. Eu mijei a mulher fiquei bem quietinho, escrevendo o que precisava, só acompanhando de revesgueio. O que era para ser uma conciliação estava muito mais para um embate. Se vis pacem, para bellum. Se queres a paz, prepara a guerra.

Foi feito o "acordo", mas sei lá, não fiquei muito satisfeito. Vi ali um embate de gente, cada um dizendo o que pensava. Será que não bastava dizer o que a lei "pensa"?

E agora, como lidar com essa circunstância? Seguuuuura, Dr.!

4 comentários:

Teresinha disse...

Pobre criança! Vítima de relações mal resolvidas, pessoas despreparadas para a nobre missão de serem pais. Êta mundo doido! Beijo, filhooo!

Cris Andersen disse...

"esquálida como uma flauta doce e feia como um pesadelo, com o cabelo a parecer o sovaco do coisa-ruim"

Juro que fiquei com pena da mulher, ninguém merece ser tão feio assim. Aliás, isso me lembra que o sovaco do diabo não deveria ter a capacidade de se reproduzir. Pelo bem mundial.

Maria Paula disse...

Meu bien, sua narrativa dessa audiência foi digna de um programa de humor!!!
Me escangalhei de rir, não conseguindo engolir sequer minha saliva, bem como aspirar o ar para sobreviver!!!

kkkkkkkkkkkkk

Parabéns!!!

Te acostume, advocacia é assim mesmo, parece até filme de comédia... ou seria tragédia?

Beijos mill!!!

Hey, sou a primeira a te acompanhar!!!

Lúcia disse...

hahahaha
Me parti de rir! òtimo texto, Sami! Feiúra não tem acento? Não entendo mais nada, vou chorar...
bjs