segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Casos de lanterninha

(por mais difícil que pareça, este relato é real e aconteceu comigo em 21/02/2008)

+ * + * +

Fui ao cinema. Mais uma vez, como sempre faço, empurro minha pesada carcaça em direção à fila da bilheteria, guarnecido de uma mochila com dois laptops, um cartão magnético e uma barriga semelhante à de uma criança com verminose.

Era uma quinta-feira, ainda do período de férias estudantis. Para completar o chamariz aos discentes (estudante que preze os carcarás minguados só vai no meio da semana e com carteirinha pra filar desconto), havia uma promoção que me causa algum embaraço: beijar na frente da bilheteria faz com que o casal pague apenas uma entrada. Por conseguinte, junte preço baixo, desconto, “pegação” e meio de semana: eis uma fila repleta de acne, ferormônios e cochichos ao pé da orelha.

Estava só. Filme? Meu nome não é Johnny. Enfim, depois de uma boa fila, cheguei diante de uma moça que, diante da tarefa de procuradora de Eros e Dioniso, nem dava mais bola pra nada: mesmo desacompanhado, ela me perguntou “promoção do beijo?”; não perdi a oportunidade: “você quer?”. Acho que ela não gosta de rapazes de aparelho: apenas ouvi “nove reais”. Droga de vida. Nem queria desconto, mesmo...!

Enquanto estava aguardando minha vez ao guichê, dei uma olhadinha pra trás. Fiquei vendo os casais, as famílias, os jovens namorados, os pares homossexuais, as meninas desacompanhadas, e eu ali, só. Fazer o quê? Posso ser feio, chato e pobre, mas não sou daqueles que fica catando garota pra ganhar desconto no cinema. Mesmo assim, contemplei com perplexidade como é lindo o amor... meninas com cara de abestalhadas olhando para seus namorados, que olhavam... a bunda das namoradas dos outros! Não perdoam nem a época de Quaresma pra ficar cobiçando a mulher do próximo! Se bem que a fila estava tão grande que, se eu cobiçasse a moça lá da ponta logo que eu cheguei, nem daria pra taxar como “pecado”...!

Após minha análise criteriosa de todos os cidadãos dispostos alinhadamente (ou quase isso), comecei a prestar atenção nas interjeições dos casais. Ouvi desde “não me atrapalha com essa tua mão boba!” até “será que aquele guri de mochila é viado (sic)? Hoje é ‘dia do beijo’ e ele está sozinho!”. Não resisti e dirigi o olhar: um rapaz pseudoariano, com uma moça muito bonita, de pernas compridas (daquelas que não dá graça de brincar de amarelinha) e trajes mínimos. Não dei atenção: procrastinei a vingança e tergiversei. “Tua hora chega, bobalhão, palhaço”, e mentalizei meu pai dando um dos seus tradicionais carinhos na nuca daquele cidadão (registre-se: nas brincadeiras do véio, afundar moleira é “cheirinho”!).

Fui à fila da bombonière pegar pipoca. Embora não deva, como pipoca, sem deixar de constar um cuidado extremo aos brackets. Pois então, pedi o “combo grande” (composto de um saco de uns dois palmos de milho estourado e um copo com 900ml de refrigerante). A morena clara do nazista comentou, em um intelectual rompante de jumentice: “ele tem que estar com alguém; olhe o tamanho da pipoca dele!”. Comecei a ouvir a torcida do Flamengo gritar no fundo das minhas entranhas “Ó lambisgóia, pode esperar / a tua hora vai chegar...”, enquanto dava licença a mais um casalzinho com cara de abestado (principalmente o cara, que não notava a menina dele rebolando, para desespero dos outros rapazes à nossa retaguarda).

Abrindo um parêntese, comento uma peculiaridade da minha personalidade: sou um rapaz pacato e, embora seja sisudo, não sou mau. Não desejo o mal a ninguém, não odeio ninguém e nem quero ver nenhum inimigo morto, pois não fiz nenhum nessa minha curta vida. Contudo, naquela noite, meus instintos mais primitivos me fizeram invocar as energias mais vis e sórdidas contra aqueles cidadãos. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”, dizia minha caridosa alma cristã; mas também sou “um Aguiar”, diria meu pai, e orava, “Pai, não permita que minha mão se machuque se eu der na cara desse chinelão!”. A vingança pertence a Deus. Contudo, não sabia que ele havia passado um mandato para um utensílio realizar justiça. Seja louvado!

“Se aproveitam, de minha nobreza”, como diz o honorável Polegar Vermelho, e preciso procurar um lugar na sala de projeção. Sala íngreme, dois laptops nas costas, pipoca, refrigerante, casaizinhos apaixonados aguardando a luz apagar para começar a pouca-vergonha (que, acreditem, existe...!). Não fiquei num lugar muito privilegiado, mas “numa escala de ‘zero’ a ‘dez’, em que ‘zero’ significa ‘lugar pouquíssimo privilegiado’ e ‘dez’ significa ‘lugar muitíssimo privilegiado’”, minha nota para aquele ponto era 7,49. Instalei-me, eu, minha barriga de criança com verminose e meus apetrechos, a saber, uma mochila com dois laptops, um saco imenso com pipocas e quase um litro de refrigerante, numa poltrona próxima às laterais do local. Distava umas quatro ou cinco cadeiras da parede, outras tanto de um casal com um rapaz que conversava em iídiche (e comecei a temer pelo menino; judeus deveriam resguardar suas origens ao menos por medo desses pseudoarianos, como esse que visualizara há pouco. Entre risos desbragados e ao som da Ciranda da Bailarina, entra o representante hitlerista e a representante asinina com restrições mentais.

Deus sabe: nada fiz de propósito.

Como sou um rapaz com uma sorte “mais grande que braço de cobra”, fui escolhido pelo “alemão” e pela “gostosa” para ter os joelhos puídos pelo pouco espaço por onde eles passarariam. Antes, eu já havia posto a mochila (aquela, a dois laptops) à esquerda. Momentos tensos começam a ocorrer: o judeuzinho notou quem se dirigia em sua direção e empalideceu. Eu agüentei firme, deixando a mula e a piranha passarem. De repente, minha mochila foi usada pelo Grande Arquiteto do Universo como instrumento da justiça: a roda do destino gira de modo imprevisto, de modo que, naquele momento, vi-a percorrer seu movimento circular uniformemente variado, em desaceleração, parando em desfavor do deutsch: o rapaz deu um tropeção na mochila (sabe a que me refiro?), prostrando-se em terra o golias da SS, com pipoca, refrigerante, saco de balas e alguns confeitos de chocolate, fora que a queda foi tão fragorosa, tão grotesca, tão estrogonófica, tão mediogáivel, tão batráquia, tão inoxidável (quero dizer brilhante), que acabou batendo com os calcanhares na rapariga, que acabou tombando às fileiras da frente, com o rosto voltado à bunda de um gordo profissional, daqueles que trabalham de porteiro em loja de $1,99!

O rapaz, sem um dente, sem pipoca, sem bala, sem chocolate, sem refrigerante e com a acompanhante com o rosto introduzido na buzanfa de um respeitável senhor de volumosas qualidades abdominais. Envergonhado com tudo isso, o rato germânico se sentiu obrigado a ir embora. A moça, coitada, estava sem calcinha, e a saia plissada foi pra galera, dando uma aula de ginecologia para umas 150 pessoas, com direito a piercing genital e depilação completa. Um exemplar de colecionador!

Nessas e outras horas, eu digo: “vai rindo, bobalhão, palhaço”. Essas são as palavras mágicas que meu pai sempre me disse antes do cascudo. Hoje, eu apenas as digo: deixo que o destino conspire em meu favor.

Aqui fica meu recado: nunca julgue a aparência; talvez, o fim do seu casamento seja o cabeleireiro bichona que a-do-ra passar a mão no rostinho da sua senhora. E cuidado: Deus não mata, mas que dá uns cagaços nos vacilões, ninguém duvida!

Saúde, força e união!

PS.: por remorso, estou pensando em fazer uma vaquinha e dar um dente pro loirinho Alguém me ajuda?

PS.²: se alguém der uma calcinha pra menina, vai levar as minhas palavras de maldição; você se arrisca?

2 comentários:

Misael disse...

"Vem com o Tchol que o Tchol é mau!"
EUAIEUAIEUAIEUA!

Abraçoo!

Fran Dimer disse...

Sami, Sami...
Huahuahuahuhauhauah
Já ouviu falar daquele de "O Segredo", aquele bom livro de auto-ajuda que a Ana Maria Bragam publicou um versão própria?
Pois é...
É a "Lei da Atração"!!!
Hauhauhauhauhauhu
Bju pra ti, querido!!