segunda-feira, 23 de março de 2009

Por quem lutar

Precisei levar documentos a um prédio no centro de Porto Alegre. Prédio medianamente grande, com 16 andares, várias salas. Como fui a trabalho, pus o crachá, mesmo que estivesse sando de casa: preferi ficar e levar diretamente, pois seria desperdício de tempo ir a Sapucaia, perder uma hora de viagem no metrô, e empregar mais uma hora e meia em carro oficial para vir e voltar de um local que dista alguns minutos de ônibus de onde resido.

Cheguei, entreguei o material necessário e saí, levando mais tempo no elevador que com o pessoal; tiro rápido, entreguei e me fui. Caminhei à estação de trem, o dia continua e o trabalho não é pouco. Ainda estava a trabalho, mesmo que de mochila às costas e caminhando no meio de uma manhã ensolarada; segui, com o crachá no peito e com o passo de quem tem algo a fazer.

Comecei a passar pelo comércio em geral, mas principalmente por lojas de roupa simples, barata, de gente humilde e batalhadora; todas estavam vazias, a despeito dos convites das moças bem apresentadas, com suas bocas altissonantes e mãos aplaudindo. O povo que passava estava ocupado, assim como eu, e não poderiam dar 15 minutos para uma camiseta, ou uma blusinha, ou algo que o valha.

Notei, ainda, que dois acessórios eram presença constante nas mãos das mulheres transeuntes: numa, a bolsa, símbolo-mor da feminilidade e da versatilidade das musas da pós-modernidade; e noutra, uma pastinha, pastinha simples, dessas de carregar e proteger folhas. Já sei do que se tratava: eram os currículos nas mãos das senhoras e senhoritas. Ou seja, não estavam indo trabalhar; antes, queriam algum trabalho.

Umas, com o corpo esguio e com as curvas da silhueta ainda bem definidas, e outras, com a experiência estampada nos traços da face e raiada aos cabelos, mas todas buscando o mesmo ideal, um sossego às suas prioridades financeiras – e não apenas às suas, mas provavelmente daqueles todos que com elas dividem o teto e a vida.

Também havia homens circulando, muito menos que mulheres, mas havia. Jovens magrelos empunhavam mochilas cheias de sonhos, em busca de uma inserção nesse mundo avassalador, nesses tempos modernos, em que todos nos assemelhamos aos peixes da Semana Santa, valendo o quanto pesamos. Vi moças seminuas, ofertando o prazer dos varões à custa do repúdio do próprio corpo; vi crianças cantando suas melodias étnicas como instrumento de comoção dos que passavam; vi pobres oferecerem dinheiro aos pobres, espoliando pessoas que nada têm (assim como esses mesmos arautos nada têm) em favor daqueles que têm, e tê muito.

Vi a guerra do pobre contra o pobre; quem resiste, fica só; quem não consegue, alia-se ao poderoso proprietário. Será que foi para isso que nascemos

Não me considero um adepto das ideias de esquerda, Deus sabe disso; contudo, pego-me a pensar o que seria do meu Brasil quando não baixássemos a cabeça aos juros abusivos dos cartões de crédito, ou, bem mais além, se não nos curvássemos diante do consumismo e a ele não prestássemos a veneração que a mídia catequiza como sendo-lhe devida.

Qual é a necessidade de cada brasileiro ter um celular, mesmo se não pode ligar por falta de créditos e se não recebe ligações? De que adiantam os empréstimos a um povo que tomará mais empréstimos para quitar seus empréstimos, e que pedirá mais empréstimos para quitar os empréstimos seguintes, e que empenhará as alianças para quitar mais empréstimos, e que mal sabe que penhor também é um empréstimo, e que fará empréstimo para recuperar as alianças, e mais um empréstimo para fazer a ceia de Natal, contando com o décimo-terceiro, e que pede “uma graninha” ao cunhado, faz um “fiado” no armazém, paga as prestações dos financiamentos do carro usado (que não consegue manter abastecido e com as manutenções em dia) e do celular sem cartão e sem utilidade, que de adiantam?

Permitiu o Pai das Luzes que eu seguisse no ramo das leis; tenho um dever sobre os ombros, que é o de alertar os meus irmãos a não caírem nas armadilhas diárias da vida. Assim costumam fazer os pais, mandando os filhos mais vividos à frente dos manos ingênuos, para lhes cuidar as pegadas. Assim espero poder fazer.

Se o Direito não olhar para as vidas a quem se destina, para nada nos serve; não criaturas do sistema: somos seus criadores! Fizemos tudo para que alcançássemos um bem-estar inatacável. No momento em que todos nos vermos assim, como ingredientes importantes nesse bolo social, saberemos fazer valer nossa voz. Enquanto esse momento não chega, ainda tenho muito o que fazer.

Levantemo-nos, como construtores sociais, para alicerçarmos uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais solidária, para que a beleza do verso seja a plena realidade: “do Universo, entre as nações, resplandece a do Brasil”.

4 comentários:

Anônimo disse...

Sami,
Solei! Estou escrevendo do computador da escola. Assim que chegar em casa, apos o ttrabalho, volto e leio seu post... tamb'em atualizo meu blog.
Captain Forr

Ingrid Scherdien disse...

Muito bom o texto e excelente a reflexão.
Eu penso em várias dessas coisas todos os dias quando passo pelas ruas das cidades e percebo as pessoas lutando por alguma coisa. Às vezes com honestidade, às vezes com incoerências.
A batalha é diária e os caminhos tortuosos, mas ninguém disse que seria fácil.
Lute, como um profissional de direito, por aquilo que acreditas.

Abraços.

Lúcia disse...

Oi, Sami! Felizmente, como advogado, operador do direito, vc vai poder lutar por muitos. Que Deus te ajude nessa missão. Bjão

E agora Lelé? disse...

Amei o texto Samuel,
Acredita que cheguei a areepiar no final, com o trecho do nosso hino!
Meu avô dizia "nó suino"... rsssss
Bjs