segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Quietinha

Sandra estava só. Tirou as sandálias e pendurou a bolsa no gancho estrategicamente ao lado da porta de saída. Lançou-se com fúria ao sofá. Fim do dia. E só. Não ligou a televisão, nem o rádio, nem o celular; já que tudo estava desligado, que assim permanecesse.

E reclinou a cabeça no braço do móvel, deixando a manta azul que cobria o encosto roçar a maça direita da face. E ali ficou. E ficou. Um prelúdio de fome lhe tocou o ventre, mas nada quis fazer. E a fome se afastou. Nem a fome quis ficar com ela, nem ela com a fome. Queria ficar só. Apenas só. Somente só. Só só. Só, só.

“Sexta-feira é dia de happy hour”, disseram as colegas de trabalho. Cada uma queria fazer uma coisa. Sandra, apesar de querer sambar, ou cantar num karaokê, ou jogar sinuca, ou pegar cinema, ou simplesmente dar uma de moleca e correr de pé descalço atrás dos pombos da praça, ainda que estivesse metida de saia godê e tailleur, ainda que tudo quisesse, não queria nada. E não querendo mais querer algo, deixou o sol do fim da tarde lhe tocar o rosto claro e os olhos verdes, preparando-se para pegar o carro e seguir para seu cantinho.

Só ela. Ela, só. Não peça a uma mulher para explicar por que ela quer ficar só, apenas deixe-a como ela quer. Quer, não; precisa. Particularmente, acho que mulheres são semelhantes a sementes: quando sós (ou, ao menos, sentem-se sós), brotam, florescem, dão resultados coloridos e brilhantes. Há dois tipos de homens diante de um cenário como o desses: o que deixa que a mulher fique assim, pois é desejo dela, e o que a faz se alegrar, pois é desejo dele mesmo.

Ela não quer o bem, nem o mal, nem o tudo, nem o nada. Ela só quer ser ela, só. No que depender de mim, deixá-la-ei assim, quietinha, só quietinha. Só. A teu tempo, ela floresce.

Um comentário:

Cris Andersen disse...

ai que lindo... posso copiar?
^^