quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Vesti la giubba



Recitar,
enquanto tomado pelo delírio
não sei mais aquilo que digo
e aquilo que faço.

Todavia é necessário. Esforça-te! Vai!
És tu talvez um homem?
Ah! ah! ah! ah! ah!
Tu és Palhaço.

Veste o casaco
e a cara enfarinha.
O povo paga
e quer rir aqui.

E se Arlequim
te rouba a Colombina,
ri Palhaço
e cada um aplaudirá.

Muda em piadas
o espasmo e o choro,
numa careta o soluço
e a dor.

Ah! Ri Palhaço,
sobre o teu amor partido.
Ri da dor
que te envenena o coração!


I Pagliacci, de Leoncavallo

sábado, 4 de outubro de 2008

No ass

Notei uma coisa em Pelotas na viagem: o povo ali não tem bunda! Salvo raríssimas exceções, as mulheres exibem quadris largos sem derrière e os homens são desprovidos de qualquer arremate glutear. Que estranho!

Que será que houve? Miscigenação (ou falta dela)? Anomalias genéticas? Ou será que, simplesmente, a seleção natural tratou de deixar o povo sem poupança?

No saber de Dona Milu, “Mistéééérios...”!

Passando pela Princesa


Estar em Pelotas, a Princesa do Sul, traz-me lembranças nostálgicas. O povo é por demais acolhedor, a vida tem outro pique e o português, outra conjugação.

Enquanto espero no barbeiro o momento de ser atendido, vou colocando em dia as coisas que só se vêem por aqui.

+ * + * +

Na Rodoviária

Desembarco na Rodoviária, um prédio de formato profissionalmente estranho, depois de três horas de genuína hibernação. No caminho para a bilheteria, uma menininha de sorriso maroto e suas três ou quatro primaveras joga seus cabelos ao ar e me ofusca os olhos com a alvura dos dentes miudinhos que lhe brotam da boca pequena. “Cosa linda”, diria meu avô. Valeu minha viagem.

Subo uma rampa espiralada e íngreme que dá para os guichês de venda de passagens. O infeliz que projetou o paradouro achava que aquilo ali facilitaria o acesso a quem está com malas de rodinha ou cadeiras de roda; é um abestado, mesmo! Sofri para subir a elevada, carregando apenas uma pasta e uma barriga! Até quando criança, macrocéfalo e esquelético, era complicado vencer a suba! Lembro do meu irmão a descer rolando, para desespero da minha mãe: “Misinho!”, dizia ela, enquanto nosso genitor dizia “vamo, vamo” e nos carregava qual um reboque de família em plena Briói.

Fui, vi e venci. Cheguei na bilheteria, comprei antecipadamente o regresso à capital dos gaúchos e fiquei “devendo” cinco centavos ao bilheteiro (disse eu “ou te devo uma moeda, ou eu te dou uma de cem”). Lucrei. Espero que, a despeito da minha economia, deixem-me tomar o refrigerante do frigobar do ônibus.

Para baixo, todo santo ajuda. Invoquei Santa Gravidade e roguei que não me atraísse a ela com seus implacáveis 9,81m/s². Antes, porém, de atacar o declive volteado, vi uma placa surreal: não se pode circular de bicicleta dentro do terminal rodoviário! Caramba! O que leva alguém a ir de bicicleta à Rodoviária? Seria, talvez, um modo de não precisar pagar estacionamento, dobrando a monareta e colocando-a na mala?

+ * + * +

Hora da bóia

Peguei um táxi e fui pra casa almoçar. O taxista me contou o panorama eleitoral, as preferências aos edis, recomendou-me um restaurante, contou quem ganhou o último turfe, reclamou de seu empregado que bateu o carro de trabalho e disse estar feliz pelo Xavante estar rumando à Série B do Brasileirão. Tudo isso em 10min.

Cheguei, larguei as coisas e roí algo com pai, mãe e cachorro. Embora não haja sido cozinhado por ela, o rango comprado na vizinha tinha cara de “feito por mãe”. Boa bóia.

+ * + * +

Navegar é preciso

Trabalhar é bom e o Lula agradece. Fui pro trabalho, carregando uma hipotensão básica após deglutir a panqueca de guisado. A reunião foi meio esquizofrênica, com várias falas altas, coisa e tal. Findos os trabalhos, encontrei meu irmão, comemos algo numa lancheria e fomos pra casa.

+ * + * +

Teletrabalho

Masquei um saco de amendoim comprado na rua, assisti um pouco de TV (propaganda política e o fim de uma sessão do STJ) e resolvi cochilar um pouco, pois queria escrivinhar um projeto que, se executado, será bem legal para mim e para meu trabalho.

Acostei-me acompanhado do jaguara, meu leal escudeiro. Acordei às 23h30min, com um bauru à minha frente e vozes altissonantes apregoando um “comi, guri”. Atendi ao imperativo, mas não dei conta de todo o lanche. Deixei pro pai arrematar.

Assisti um pedaço de Cold Case, em que contava a história de uns casais hippongas e um crime passional, e fui trabalhar. Entre redação, leitura e análise de documentos, as horas passaram e já eram 5 da matina. “Tá na hora de dormir / não espere mamãe mandar”.

+ * + * +

Dia da volta

Levantei tarde, em virtude do horário em que cerrei as pálpebras. 10h30min, saí de casa para mais um turno de labuta. No Gabinete do Diretor-Geral, conversei com “as gurias” e fui almoçar com...

(barbeiro chamou)

... com o meu amigo Erasmo Carlos, digo, Martin Brauch. Encontro agradável, sushi e lembranças juvenis.

Cafezinho, relax e corte de cabelo tomaram o resto do meu tempo. Uma barbearia “clássica”, com direito a um monte de homens falando do Campeonato Brasileiro e do Brasil de Pelotas indo para a Série B foi o local de tosa das melenas.

Tentei comprar, sem sucesso, uma camisa nova; não havia camisas com punho duplo à venda; talvez houvesse, mas o vendedor fez uma cara de tão perdido quando eu a pedi...! Para ter uma idéia, fui questionado se “esse tipo de camisa” seria de manga curta ou longa!

+ * + * +

Na pressão

Cheguei em casa, tomei café e aguardei meus pais para sairmos juntos, pois iríamos aproveitar o mesmo táxi. Como meus ascendentes são enrolados², quase que perco o transporte de volta. Cheguei cinco minutos antes da partida do autocarro.

+ * + * +

Chega. Até mais!

(imagem retirada de Câmera Viajante)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Melancolia

Um vazio no estômago, uma cefaléia do tamanho de um bonde, um sentimento de dia meio sem graça, os pés cansados, os olhos ardendo, o peito e braços doendo, falta de ar, sorumbático, combalido, sentindo-me uma belonave à deriva, prestes a soçobrar diante das procelosas vagas daquilo que chamamos “vida”: é assim que me sinto agora.

Fico e deixo, antes de reclinar, com uma das mais belas e deprimentes canções de Beethoven, o primeiro movimento da Sonata ao Luar, composta já em estado de avançada surdez para uma cega que queria poder contemplar o cortejo fúnebre que passava diante da vidraça em que se quedava.

Amanhã (digo, hoje) visitarei a Princesa do Sul. Qualquer coisa, estou no celular.

Boa noite.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Vieses

Para o suicida:
É o fim. Chega, cansei. Aqui está o dinheiro. Adeus. Mate-me logo.

Para o irmão:
Por que ele? Por quê?

Para o motorista:
Droga de trânsito. O que aconteceu dessa vez? Quanto tempo leva?

Para o curioso:
Só sei que tem um monte de gente na volta e que a polícia foi chamada há pouco.

Para o padre:
Onde está a família?

Para a polícia?
Onde está o DML?

Para a família:
O que faremos?

Para a funerária:
Lamentamos muito.

Para o legista:
Perfuração crânio-encefálica com conseqüente hemorragia e perda de massa encefálica motivadas por projétil de arma de fogo.

Para o banco:
Uma dívida.

Para o carteiro:
Uma economia.

Para a florista:
Um trabalho.

Para o amigo:
Uma perda.

Para o médico:
Uma baixa.

Para o assassino:
Um favor.

Para o noticiário:
Foi encontrado sem vida o corpo do artista circense Silvino Araújo de Carvalho, o palhaço Leumas, no Edifício das Hortênsias, em Otrop do Sul. A polícia está investigando o caso, ainda sem indícios de autoria. O irmão de Silvino diz que, mesmo em suas polêmicas, era bem relacionado e não tinha inimigos. O corpo de Leumas será velado no Clube dos Pedreiros-Livres, em que sempre militou.
Leumas deixa um legado de uma obra completa e duas inacabadas. Suas participações, incontroversamente exuberantes, marcaram o jeito de se apresentar; combinando “progesterona” com “efeméride”, cativou platéia seleta com suas piadas desajeitadas, porém de rasgadas críticas. Dito tímido, Silvino pouco exibiu sua vida pessoal: dividido entre a paixão por “uma menininha ruiva” (em clara comparação a Charlie Brown) e à música (tocou oboé na orquestra da escola em que estudou), desempenhou papel relevante no combate ao que chamava de “tecnicismo macambúzico”, valorizando sempre o lado bom da vida e arrebanhando poucos, porém fiéis companheiros.

Para o obituário:
A família do sempre lembrado Silvino Araújo de Carvalho, o palhaço Leumas, convida V. S.ª para os atos de sepultamento de seu amado ente, a se iniciarem às 1º/10/2008, às 17h, na sala do Clube dos Pedreiros-Livres, em Ortop do Sul e, em seguida, o féretro rumará em direção ao Cemitério Ecumênico Firmino Eusébio Treichel, Ala São Sebastião, onde o corpo será inumado. A família enlutada.

Pensar dores

- NIETZSCHE!
- Saúde.
- Obrigado.
- Tá Marx eim?!
- Tô com uma Adorno corpo danada...
- Cuidado eim, com mosquito da Heidegger.
- Arquimedes que eu tenho de ficar doente...
- Estou brincando.
- Acho que foi o Schopenhaeur de ontem?
- Quânticos?
- Sete, e cinco Pasteur de Bacon.
- Nossa! Fosse eu teria posto os Boff pra fora.
- Sabe como é... Um tira Agostinho aqui outro ali...
- Sei, e acaba no Soren...
- É só uma Wittgenstein.
- Quer um Karl de fruta?
- Zenão, obrigado.
- Você precisa parar com essa mania de Feuerbach todo dia...
- Pascal é o problema?
- A coisa pode ficar Rousseau pro teu lado.
- Que nada... Só preciso tirar uma Sêneca e tudo bem...
- Sartre dessa vida!
- O problema é que eu Goethe tanto de cantar num Karl o que...
- Hannah?
- É isso mesmo... Quem Kant seus Tales espanta.
- Ora, me Popper!
- Vai me dizer que não Goethe de Tomás de Aquino com os amigos?
- Gustav, não Goethe mais.
- Nem Jung golinho?
- Não!
- Max por quê?
- Gustav, até o dia que não pude Voltaire pra casa sem ajuda...
- Isso é Freud mesmo...
- Anaxágoras mudei o Foucault da minha vida.
- É?
- Por isso, Newton nem aí se quiser se acabar, mas não Comte comigo.
- Spinoza senhora! Senti uma Pitágoras de amargura aí...
- Problema Ptolomeu.
- Calma! Einstein com algum problema?
- Desculpe... Ando me sentindo Schleiermacher...
- hum, hum...
- Tenho medo de ficar Sócrates...
- Besteira.
- O médico disse...
- Pode falar, o Kierkegaard que seja...
- O médico disse que estou com... Strauss.
- Puxa! Que nada a ver... Mas não Descartes a possibilidade.
- Platão Confúcio pra mim.
- Heigel a cabeça rapaz!
- Acho que eu é que estou precisando de um Schopenhaeur...
- É assim que se fala! Quer do claro ou Epicuro?
- Epicuro.

- NIETZSCHE!
- Zeus te crie.
- Arendt.


(descaradamente copiado de Verticontes)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Shanah Tovah!

Mazel tov! Chegamos ao início de mais um ano-novo judaico. No calendário cristão, estamos a acabar o nono mês do ano. O tempo voa!

Para comemorar a efeméride, deixarei ao deleite do mundo três canções judaicas: Hava Nagila, que é, quiçá, a mais emblemática das músicas dançantes, Yerushalaim Shel Zahav, o segundo hino da nação de Israel, e Be Arvot Anguev, que é uma das melodias mais agradáveis que eu conheço.







Shalom alechem!