Sim, eu sei: meu blog está às traças. Confesso: nos últimos tempos, sequer lembro dele. Ando colocando de tudo no Twitter, mas nada de substancioso. Talvez seja por isso: ando superficial demais para escrever em mais de 140 caracteres.
Já tive momentos áureos: postei músicas, escrevi reclamações, comentei minha incipiente vida de operador jurídico. Tentei inclusive escrever sobre a correria do casamento. Mas nada consegui tocar adiante. Vai ver que é porque não ando com a alma preparada para discorrer sobre mim mesmo.
Casei, terminei as aulas do Mestrado, engordei (mais um pouco), estou advogando firme numa sala (atender em casa é um saco e, aconselho, deve ser apenas para remediar uma situação bem urgente). Estou atolado de textos do Mestrado para escrever, fora o projeto de dissertação e a própria dissertação. Pretendo e preciso participar de eventos. Quero lecionar as soon as possible. Preciso passar 24 camisas, segundo meu último levantamento, e há mais outras outras para lavar. Preciso ainda arrumar a casa. Preciso encontrar amigos, ir ao cinema, ler por hedonismo. E, talvez o principal desses últimos dias, escrever por hedonismo.
Olá, meu blog. Por incrível que possa parecer, ainda sou teu dono.
Não sei se ainda terei os leitores de outrora. Não sei eu eu lerei o que escreverei. Não sei sequer se escreverei. Acho, contudo, que poderia escrever. Que deveria.
Projetos, planos, metas. Muita coisa. O mundo passando, e o meu eu, ficando tergiversado. Acho que meu blog já foi um pedaço de mim. Acho que é por isso que estou voltando a escrever: para recuperar um pouco do meu eu que ficou abafado pela metodologia, jurisprudência e uma série de coisas que, apesar de exteriorizarem o que faço, não mostram realmente quem sou.
Blog abandonado, perdoa-me. Ainda gosto de ti.
Voltarei a escrever. Não papa amealhar leitores - até porque nunca os tive às pencas. Voltarei a escrever porque me amo, porque quero me amar, porque quero manter o juízo da pessoa em ordem. Ok, já sou um mestrando, um advogado, um músico, um marido. Preciso voltar a ser um Samuel.
Olá, meu blog. Tu te sentes meio solitário nesse mundo de tantos blogs e coisas do gênero? Eu também me sinto assim no meio de tanta gente. A maior solidão é na profusão de iguais, quando tu não passas de um ente dentre tantos outros - como ouvi numa aula de Introdução à Filosofia. Se tu te sentes assim, estás como eu me sinto. E, se for assim, ainda és o meu reflexo, minha imagem e semelhança.
Reiniciar: tarefa difícil. Manter a inércia é fácil - seja em repouso, seja em MRU; difícil é começar a acelerar para chegar a algum lugar. É isso que eu quero: acelerar.
Ainda estou devagar, mas meu ímpeto está forte. Acho que era disso que eu estava precisando.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 21 de julho de 2010
A saga dos convites / a morada conjugal / e o Mestrado?
Saímos, Hadassa e eu, para vermos convites no sábado próximo passado. Fomos a duas agências, a Fina Arte e a Paper Place no turno da manhã.
Chegamos um pouco atrasados na Fina Arte, mas Andréa, a moça que nos atendeu, nos atendeu com toda a cordialidade e bom humor. Não foi uma vendedora clássica, mas praticamente uma amiga, dando dicas, mostrando condições, rindo conosco. Foi muito bom, valeu a pena passar lá. Não achamos o modelo que Hadassa havia escolhido, mas saímos satisfeitos, com alguns modelos em vista. O ponto era de fácil acesso e no pulmão dos negócios em POA. Não nos demos conta pela numeração, mas chegando lá, vimos que é no mesmo prédio em que fica a sala do meu sogro.
Já na Paper Place, chegamos rigorosamente no horário. O local do escritório é longe de ser privilegiado, a despeito de ser no Centro de Porto Alegre. Fomos atendidos por Marcela,que devia estar numa TPM de rachar, pois demonstrava um mau humor do caramba. Não nos tratou mal, mas não tratou bem. Coisas da arte da venda, pois vender é uma arte. Enfim, disse “ó, tão aí” e ficou mexendo no PC. Olhamos alguns, levamos orçamentos. Além de não preferirmos os modelos, os preços são mais altos – e há um que parece a estampa do banheiro do hotel que fico quando venho à aula do Mestrado.
Segunda-feira, recebo da patroa a notícia de um apartamento numa localização que nos agrada e que se encontra em nossas condições atuais. Gostei da ideia, afinal, o nosso, que compramos em 2007 e até agora não está pronto, já está no Judiciário para ter o contrato anulado. Coisas da vida. De mais a mais, precisamos de uma morada comum – se é pra ficarmos um na casa do outro, ficamos de namorados, né? Ontem à noite, falamo-nos e ela disse que vai encaminhar a papelada. Oremos, portanto, para que tudo se encaminhe como Deus entender melhor para nós.
Estou ficando, nessa semana, até quinta-feira fora em Santo Ângelo, pois tenho a prova de proficiência para o Mestrado. Se eu conseguir me livrar dessa agora, melhor para mim. Confesso, não estudei e não terei tempo para isso. Procrastinei muitas tarefas (algumas, por necessidade, outras, por falta de paciência – mas isso é outro capítulo) e aproveitarei para tocá-las aqui. Confesso que me sinto o Mário Quintana, enfurnado num quarto de hotel escrevendo sem parar. C’est La vie. Tenho, na ordem do dia, três textos para escrever. É [quase] óbvio que não consiga. Se conseguir, melhor. Conto depois a saga. O lado bom: poucas distrações e muita concentração; o lado ruim: longe da minha casa, dos meus livros, da minha Morena e das coisas ao quais sei lidar. Como sou um pouco aventureiro e flexível quanto às circunstâncias, então é só da Morena e dos livros, mesmo.
Até mais!
Chegamos um pouco atrasados na Fina Arte, mas Andréa, a moça que nos atendeu, nos atendeu com toda a cordialidade e bom humor. Não foi uma vendedora clássica, mas praticamente uma amiga, dando dicas, mostrando condições, rindo conosco. Foi muito bom, valeu a pena passar lá. Não achamos o modelo que Hadassa havia escolhido, mas saímos satisfeitos, com alguns modelos em vista. O ponto era de fácil acesso e no pulmão dos negócios em POA. Não nos demos conta pela numeração, mas chegando lá, vimos que é no mesmo prédio em que fica a sala do meu sogro.
Já na Paper Place, chegamos rigorosamente no horário. O local do escritório é longe de ser privilegiado, a despeito de ser no Centro de Porto Alegre. Fomos atendidos por Marcela,
Segunda-feira, recebo da patroa a notícia de um apartamento numa localização que nos agrada e que se encontra em nossas condições atuais. Gostei da ideia, afinal, o nosso, que compramos em 2007 e até agora não está pronto, já está no Judiciário para ter o contrato anulado. Coisas da vida. De mais a mais, precisamos de uma morada comum – se é pra ficarmos um na casa do outro, ficamos de namorados, né? Ontem à noite, falamo-nos e ela disse que vai encaminhar a papelada. Oremos, portanto, para que tudo se encaminhe como Deus entender melhor para nós.
Estou ficando, nessa semana, até quinta-feira fora em Santo Ângelo, pois tenho a prova de proficiência para o Mestrado. Se eu conseguir me livrar dessa agora, melhor para mim. Confesso, não estudei e não terei tempo para isso. Procrastinei muitas tarefas (algumas, por necessidade, outras, por falta de paciência – mas isso é outro capítulo) e aproveitarei para tocá-las aqui. Confesso que me sinto o Mário Quintana, enfurnado num quarto de hotel escrevendo sem parar. C’est La vie. Tenho, na ordem do dia, três textos para escrever. É [quase] óbvio que não consiga. Se conseguir, melhor. Conto depois a saga. O lado bom: poucas distrações e muita concentração; o lado ruim: longe da minha casa, dos meus livros, da minha Morena e das coisas ao quais sei lidar. Como sou um pouco aventureiro e flexível quanto às circunstâncias, então é só da Morena e dos livros, mesmo.
Até mais!
sábado, 10 de julho de 2010
Pois é!
Casar tem dessas coisas...
Ontem, minha mãe ligou para a agência onde eu trabalho, precisava muito falar comigo (ela já tinha ligado no celular e eu não atendi pois estava ocupada). Meu colega escreveu num papel: "sua mãe precisa falar urgente com você". Pensei: "morreu alguém", atendi. Ela estava numa loja de artesanato e precisava me contar que encontrou mini prendedor de roupa e mini cachepô.... eu mereço.
Sábado, 8 horas da madrugada, levantar e sair correndo para tentar ajustar os últimos preparativos. Vou sair com a Patrícia (umas das madrinhas) e a Raysa (minha irmã), para finalizar a lista de presentes, ver bolos, doces, sapatos, lembrancinhas e mais algumas coisas (se listar todas não vou sair hoje, hehehehe).
Beijos, até o fim do dia tem mais.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Jantar dos padrinhos/notícias
Estando tudo justo e perfeito, provavelmente jantaremos com os padrinhos no dia 31/7 (com o perdão dos amigos, será por adesão, hehehe!). Farei empenho para colocar foto do evento aqui.
Recebi de Hadassa a notícia do bufê: ao que parece, minha ideia de fazer algo com cara de cantina ficou bem legal. Aguardemos, portanto.
Estou incumbido de fazer os convites para o Chá de panela. Farei um virtual, para quem se interessar (presentes sempre são bem-vindos! Hehehe!).
Por ora, é isso. Bjos e abraços!
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Flor roxa
É, pessoal! A paixonite tá pegando e o casamento, se aproximando!
Sei que muito pouco comentei sobre esse tema no blog: é, de certa forma, uma falha minha. Não costumo compartilhar das coisas mais pessoais, mais imanentes; ao contrário do que se pensa, sou tímido - e só os tímidos sabem o que é ser falante para esconder um temperamento de tartaruga, que se esconde ante situações que lhe atacam de um modo ou de outro.
Mas, enfim, sou um rapaz apaixonado. Apaixonado, não: um rapaz que ama. Já com Hadassa há algum tempo, passamos por toda série de adversidades. Superamos todas. Sempre ouvi de Hadassa que "juntos, não há estrelas que não possamos alcançar, nem sonhos que não possamos realizar". Cada vez mais creio nisso.
E o casamento tá chegando!
Resolvi, para desestressar da vida acadêmica e começar a colocar para fora o turbilhão de coisas que se passam, que poderia "desabafar" no blog! Convidei a patroa para o mesmo exercício, que topou de boa vontade! Assim sendo, em breve, ganho uma articulista para esse espaço: a própria, a magnânima, a famígera ea inozidável, a estrogonoficamente sensível, a mediocrática, a retumbante, a rélpis minha doce Hadassa Luiza!
Vamos esperar no que vai dar; acho que será divertido. Convido a todos: acompanhem-nos nessa empreitada!
Sei que muito pouco comentei sobre esse tema no blog: é, de certa forma, uma falha minha. Não costumo compartilhar das coisas mais pessoais, mais imanentes; ao contrário do que se pensa, sou tímido - e só os tímidos sabem o que é ser falante para esconder um temperamento de tartaruga, que se esconde ante situações que lhe atacam de um modo ou de outro.
Mas, enfim, sou um rapaz apaixonado. Apaixonado, não: um rapaz que ama. Já com Hadassa há algum tempo, passamos por toda série de adversidades. Superamos todas. Sempre ouvi de Hadassa que "juntos, não há estrelas que não possamos alcançar, nem sonhos que não possamos realizar". Cada vez mais creio nisso.
E o casamento tá chegando!
Resolvi, para desestressar da vida acadêmica e começar a colocar para fora o turbilhão de coisas que se passam, que poderia "desabafar" no blog! Convidei a patroa para o mesmo exercício, que topou de boa vontade! Assim sendo, em breve, ganho uma articulista para esse espaço: a própria, a magnânima, a famígera e
Vamos esperar no que vai dar; acho que será divertido. Convido a todos: acompanhem-nos nessa empreitada!
quarta-feira, 10 de março de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Os donos do seu nariz
(Luis Fernando Veríssimo)
Todos deviam ser donos do seu nariz, mas infelizmente isto não acontece. Num país como o Brasil o sonho do nariz próprio continua inalcançável para a maioria. Só uma minoria privilegiada é dona do seu nariz. Poucos sabem que 70% dos brasileiros alugam seu nariz. O Governo vem tentando melhorar a situação através dos financiamentos do BNN para a aquisição do nariz próprio, mas com a correção monetária, reajustes, etc. o pobre acaba pagando pelo nariz muito mais do que pode.
Muitos vivem na ilusão de serem donos do seu nariz e na realidade não são. Mesmo os proprietários de nariz não têm direitos absolutos sobre ele. O nariz é um bem móvel. Qualquer transação envolvendo o nariz depende da fiscalização pública. Você descobre que o nariz não lhe pertence quando, por exemplo, pretende viajar para o exterior. Não há nenhum empecilho para você sair do país, ao contrario do que se pensa.
— O senhor tem completa liberdade de ir e vir.
— Sem papelada, sem nada? Posso sair quando quiser?
— Exato. Mas sem o nariz, claro.
— Como? Eu sou dono do meu nariz.
— Perdão. Seu nariz é uma concessão do Governo. Pertence ao Estado.
— Mas eu não posso viajar sem ele. Somos muito ligados.
— Bem. Para tirar um nariz do país é preciso passaporte, visto de saída, atestado de bons antecedentes, atestado de ideologia do nariz...E o depósito compulsório.
— Quanto?
— Os olhos da cara.
Todos os impostos e taxas que você paga ao Governo são pelo uso do seu nariz. O nariz, na realidade, é a única parte da sua anatomia sobre a qual o Governo tem todo o poder. O Estado não interfere no resto do seu corpo que, no caso de prisão arbitrária, só vai junto porque quer. Foi isso, na opinião de alguns juristas, que tornou o habeas-corpus supérfluo entre nós. E, convenhamos, um habeas-nasalus seria ridículo.
Eu alugo meu nariz e estou muito satisfeito com ele. Não conheço o proprietário. Pago o aluguel em dia, conservo o nariz em bom estado e não dou ao locador qualquer razão para queixa. Mas, teoricamente, o dono do meu nariz pode reclamá-lo quando quiser. Basta uma denúncia vazia de que eu estou metendo o meu — ou dele, no caso — nariz onde não devo e ele pode reaver o nariz. A situação é irrespirável.
Alguns proprietários de narizes alugados estão sempre vistoriando a sua propriedade. Acordam o locatário no meio da noite para ver como vai o nariz.
— Hum. Deixa ver. Parece bem. Este cravo aqui do lado...
— Vou espremer amanhã mesmo.
— Você limpa todos os dias?
— Por dentro e por fora.
— Olha aí: os óculos estão deixando marca. Não pode.
— Vou cuidar disto. Agora posso dormir? Estou meio resfriado...
— Que tipo de lenço você tem usado? De papel, espero. Lenço de pano irrita o nariz. Olhe lá, hein?
Alguns contratos de aluguel são extorsivos. Incluem uma cobrança por espirro, taxa-coriza, o diabo.
Existe uma espécie de bolsa do nariz onde os grandes proprietários compram, vendem e trocam seus narizes.
— Tenho um nariz bem grande em Petrópolis. Troco por dois pequenos na Zona Sul.
— Nariz novo. Vendo. Estilo grego.
— Compro um afilado. Qualquer zona menos Avenida Farrapos.
— Vendo um achatado, simpático, amplas narinas, na Independência.
— Reformado, como novo, troco por adunco ou arrebitado.
A questão do nariz reformado é, legalmente, um pouco confusa. Quem é dono do seu nariz pode alterá-lo como quiser, desde que obtenha uma licença da prefeitura. Um bom Pitanguy, hoje vale uma fortuna. Mas quem aluga o seu nariz e quer modificá-lo deve antes consultar o dono.
— Estou pensando em tirar um pouco aqui, estreitar aqui e baixar aqui.
— Impossível. Não posso permitir. A senhora quer diminuir a área total do meu nariz.
— Mas vai ficar um Tônia Carrero perfeito. Vai aumentar de valor.
— Sei não... Aumentam os impostos...
— O senhor pode aumentar o aluguel.
— Feito.
Os donos do seu nariz têm o poder e não há nada que você possa fazer a respeito. O seu nariz pode ter sido vendido a uma multinacional agora mesmo e você nem sabe.
Todos deviam ser donos do seu nariz, mas infelizmente isto não acontece. Num país como o Brasil o sonho do nariz próprio continua inalcançável para a maioria. Só uma minoria privilegiada é dona do seu nariz. Poucos sabem que 70% dos brasileiros alugam seu nariz. O Governo vem tentando melhorar a situação através dos financiamentos do BNN para a aquisição do nariz próprio, mas com a correção monetária, reajustes, etc. o pobre acaba pagando pelo nariz muito mais do que pode.
Muitos vivem na ilusão de serem donos do seu nariz e na realidade não são. Mesmo os proprietários de nariz não têm direitos absolutos sobre ele. O nariz é um bem móvel. Qualquer transação envolvendo o nariz depende da fiscalização pública. Você descobre que o nariz não lhe pertence quando, por exemplo, pretende viajar para o exterior. Não há nenhum empecilho para você sair do país, ao contrario do que se pensa.
— O senhor tem completa liberdade de ir e vir.
— Sem papelada, sem nada? Posso sair quando quiser?
— Exato. Mas sem o nariz, claro.
— Como? Eu sou dono do meu nariz.
— Perdão. Seu nariz é uma concessão do Governo. Pertence ao Estado.
— Mas eu não posso viajar sem ele. Somos muito ligados.
— Bem. Para tirar um nariz do país é preciso passaporte, visto de saída, atestado de bons antecedentes, atestado de ideologia do nariz...E o depósito compulsório.
— Quanto?
— Os olhos da cara.
Todos os impostos e taxas que você paga ao Governo são pelo uso do seu nariz. O nariz, na realidade, é a única parte da sua anatomia sobre a qual o Governo tem todo o poder. O Estado não interfere no resto do seu corpo que, no caso de prisão arbitrária, só vai junto porque quer. Foi isso, na opinião de alguns juristas, que tornou o habeas-corpus supérfluo entre nós. E, convenhamos, um habeas-nasalus seria ridículo.
Eu alugo meu nariz e estou muito satisfeito com ele. Não conheço o proprietário. Pago o aluguel em dia, conservo o nariz em bom estado e não dou ao locador qualquer razão para queixa. Mas, teoricamente, o dono do meu nariz pode reclamá-lo quando quiser. Basta uma denúncia vazia de que eu estou metendo o meu — ou dele, no caso — nariz onde não devo e ele pode reaver o nariz. A situação é irrespirável.
Alguns proprietários de narizes alugados estão sempre vistoriando a sua propriedade. Acordam o locatário no meio da noite para ver como vai o nariz.
— Hum. Deixa ver. Parece bem. Este cravo aqui do lado...
— Vou espremer amanhã mesmo.
— Você limpa todos os dias?
— Por dentro e por fora.
— Olha aí: os óculos estão deixando marca. Não pode.
— Vou cuidar disto. Agora posso dormir? Estou meio resfriado...
— Que tipo de lenço você tem usado? De papel, espero. Lenço de pano irrita o nariz. Olhe lá, hein?
Alguns contratos de aluguel são extorsivos. Incluem uma cobrança por espirro, taxa-coriza, o diabo.
Existe uma espécie de bolsa do nariz onde os grandes proprietários compram, vendem e trocam seus narizes.
— Tenho um nariz bem grande em Petrópolis. Troco por dois pequenos na Zona Sul.
— Nariz novo. Vendo. Estilo grego.
— Compro um afilado. Qualquer zona menos Avenida Farrapos.
— Vendo um achatado, simpático, amplas narinas, na Independência.
— Reformado, como novo, troco por adunco ou arrebitado.
A questão do nariz reformado é, legalmente, um pouco confusa. Quem é dono do seu nariz pode alterá-lo como quiser, desde que obtenha uma licença da prefeitura. Um bom Pitanguy, hoje vale uma fortuna. Mas quem aluga o seu nariz e quer modificá-lo deve antes consultar o dono.
— Estou pensando em tirar um pouco aqui, estreitar aqui e baixar aqui.
— Impossível. Não posso permitir. A senhora quer diminuir a área total do meu nariz.
— Mas vai ficar um Tônia Carrero perfeito. Vai aumentar de valor.
— Sei não... Aumentam os impostos...
— O senhor pode aumentar o aluguel.
— Feito.
Os donos do seu nariz têm o poder e não há nada que você possa fazer a respeito. O seu nariz pode ter sido vendido a uma multinacional agora mesmo e você nem sabe.
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