terça-feira, 30 de setembro de 2008

You

Com a chuva caindo na capital dos gaúchos, associada a uma falta de sono pra lá de resistente, nada melhor que um pouco de Carpenters, ainda mais cantando You, uma música que, embora tenha toda a cara de música de namorados, é um gospel de Ralph Carmichael (um dos meus compositores preferidos).

Pra quem curte, boa música!



You are the one who makes me happy
When everything else turns to gray
Yours is the voice that wakes me mornings
And sends me out into the day

You are the crowd that sits quiet list'ning to me
With all the mad sense I make
You are one of the few things worth remembering
And since it's all true, how can anyone mean more to me than you.

Sorry if sometimes I look past you
There's no one beyond your eyes
Inside my head the wheels are turning
Hey sometimes I'm not so wise

You are my heart and my soul, my inspiration
Just like the old love song goes
You are one of the few things worth remembering
And since it's all true, how could anyone mean more to me than you

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Defendendo os indefesos

Embora falante, gosto de reduzir o que sinto em poucas palavras. Hoje, esse resumo é um pouco longo, meio misturado, mas pleno: sinto-me “responsável”.

Tive severa crise de lombalgia na sexta-feira, o que me inviabilizou o descanso e me forçou a fazer pequena doação ao quiropraxista; com um pouco de sorte, consegui uma consulta de emergência ainda pela parte da manhã, o que deu uma bela ajeitada, mas não foi plena para me aliviar os incômodos.

Procurei livros para minha prima, conversei, pensei, refleti. Empreguei um tempo de qualidade para mim mesmo, o que me foi bom. Não estava muito contente com o mal-estar, mas me sentia plácido, naquela imperturbabilidade que Epicuro tanto pregou. Também recebi uma encomenda: uma apresentação institucional do meu trabalho, para que fosse exposta em evento fora do Estado; tive de procrastiná-la, pois não conseguia permanecer muito tempo sentado, nem em pé, nem deitado. Inquieto, dolorido e impaciente: eis Samuel.

Dormi um pouco mais no fim de semana. Estudei bastante, embora ainda me considere um incipiente (e insipiente) na persecução penal (mesmo lendo e relendo o Código de Processo Penal, pensando em autos de prisão em flagrante e sabendo que infrações de menor potencial ofensivo apresentam pena mínima menor que um ano e pena máxima menor que dois), e não deixei de ler as Sagradas Letras, auxiliado pelo sapientíssimo Pr. Lima.

Fui a Sapucaia: navegar é preciso, e o gigante do dever rugia ao meu ouvido. Peguei imagens e dados para fazer os slides e voltei para casa. Contudo, recebi uma ligação que me inquietou: uma conhecida, amiga de amiga, disse estar grávida e queria abortar. Meu Deus, um crime doloso contra a vida! Persecução penal, detenção, crime de médio potencial ofensivo, um ser indefeso galgando o cadafalso pela sua própria protetora-mor. Isso me deixou muito mal; não poderia deixar de fazer algo: fui conversar com a moça.

Embora cansado, tendo ido dormir às 6h de domingo, ido à Igreja pela manhã e cheio de coisas, amei uma criança que nem minha é. Não poderia deixar de lado um ser indefeso cair vaso sanitário abaixo por causa de um chá abortivo qualquer, vendo uma mãe nervosa e um pai aturdido, que optam mal porque optam por seus próprios umbigos.

Quero ser advogado. Quero lecionar, ganhar dinheiro, ser feliz, ter família, estudar, coisa e tal, mas um dos meus anseios mais intensos é estar ao lado de quem necessita de amparo. Minha curta vida me ensinou que não há mocinhos nem bandidos, mas apenas humanos, demasiadamente humanos. Pedi à provável genitora que não optasse por outra pessoa, assim como possivelmente fizeram com ela.

Queremos dormir em paz, mas não nos damos sossego. Pouco adianta buscar cobertores para se aquentar se não nos cobrirmos com ele. Podemos soltar pombos, mas a paz só se manifesta em um vôo livre e desimpedido. Só há vida

Não sei o que acontecerá hoje, segunda-feira. Sei, entretanto, que fiz minha parte. O Justo Juiz fará o que lhe aprouver; apenas deixei que a inaudível voz do zigoto falasse mais alto que os gritos do egocentrismo. Agi certo? Espero que sim.

Que Deus me ajude, e ajude essa provável mãe a achar seu norte. A balança pode pender aos mais fortes, mas é Ele que dá o equilíbrio. A Ele cabe o futuro, mas a mim cabe o presente. Que Ele me guarde até o dia em que eu O encontre face a face, mas que eu tenha força para guardar aqueles a que me estão próximos e que, de certa forma, são-me confiados o sustento e a vida.

Deus, dá-me forças; não por mim, pois de Ti dependo, mas para que eu defenda aos outros, os que dependem de alguém para que sejam ouvidos. Não quero mostrar que sou Teu filho; quero apenas sê-lo. Permita-me poder tornar real e aplicável a frase mais crua da Lei Fundamental: “todos são iguais”, mas não apenas perante a lei. Que eu seja assim, um igual. Por Teu Filho, que se fez igual por mim, Amém.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Um dia com minha pilcha

No interesse de honrar as tradições do povo gaúcho, investi, sábado último, em uma pilcha. Esse traje, quase que sagrado no estado sul-rio-grandense (tão reverenciado que é considerado traje formal e de honra por lei), é típica construção de povos que aqui viveram e lutaram, e, em se peleando mutuamente, deixavam parte do seu costume ao vestuário do outro.

Acordei cedo. Tomei chimarrão (o que o faço para acompanhar os outros; no Rio Grande do Sul, não tomar chimarrão é estar isolado do convívio social), acompanhei as notícias dos jornais matinais e li a gazeta. Lenço encarnado, incongruentemente guarnecido das Armas Nacionais a lhe jungir as pontas, bombacha e paletó pretos, bota e cinto em tom de couro natural, camisa branca e um cidadão a se sentir fantasiado: eis-me pronto ao meu segundo dia de trabalho na semana que antecede o Vinte de Setembro do ano de dois mil e oito de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Subia a plataforma ao metrô, de maleta em punho e em passo apressado. “Navegar é preciso”, como sempre me recordo. De repente, um cidadão me cruza o caminho, bochechas rosadas em rosto faceiro, e sou saudado com um “bom dia, gaúcho”. Parei. Que se faz diante dessa assertiva? Meu espanto se deu pelo cumprimento ou pelo fato de eu ser “reconhecido” como gaúcho? E agora, como poderei ser um bom representante da simples, porém nobre cultura do meu torrão?

Ao me sentir visto por todos (embora ninguém me lance os olhos, nem “de revesgueio”), descobri-me gaúcho, pertencente a um povo aguerrido e que nunca se acovardou diante das intempéries, fazendo uma república para fugir de um governo que reputavam injusto. Vi-me simples, um homem na cidade, e não mais um homem da cidade. Enxerguei, por trás dos óculos e no fundo dos olhos, os olhos do correeiro Simão Aguiar e do campeiro Ignácio Cabral, meus bisavós, homens que nunca duvidaram de um ideal de Liberdade, Igualdade e Humanidade, como consta no brasão farroupilha. E senti-me emocionado, como nunca outrora, pois não enxerguei Kans Kelsen, títulos de crédito ou compromissos inadimplidos, mas descobri que defendo pessoas porque as quero humanas, voltando à confiança do fio do bigode, inspirados na atávica sabedoria legada pelo Livro Sagrado, lavando a própria honra com sangue, se assim fosse o caso.

Não deixei o amigo sem resposta. Buenos dias, señor, e me fui ao batente, lidar com meus chasques.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Um gosto por um vintém

Não há nada exatamente igual a outro elemento de mesmas características, forma, volume e blablablá. Não há. Se for outro, então não é o mesmo.

Tive um namoro-relâmpago com uma moça que estimo bastante, embora não a veja nem fale com ela há muito. Em uma das visitas à casa dela, conversávamos, a família dela e eu, sobre frivolidades, tais como o aumento do preço do grão-de-bico e sobre “os cricris” da vida, em que minha ex-futura-sogra narrava o fato de ter um irmão (ou cunhado, ou primo, ou algo que o valha) extremamente crítico, que punha defeito em qualquer alimento preparado, exceto um: a salada de frutas que a esposa dele fazia. Meu quase-sogro olhou para mim, deu-me um tapão no joelho, fitando-me a pupila como se fossem duas bolinhas de uva, a me dizer “ora, veja só; salada de fruta é tudo igual!”. Acho que foi ali que meu namoro acabou.

Nada pode ser maior que a salada de fruta da minha avó. Nada. Em outras categorias, ficam a torta de bombom da Mana e o estrogonofe de almôndegas da Hadassa, além dos biscoitos da vó Maria e das limonadas do Tio Clóvis e da vó Eva, sem contar na torta de biscoito que mamãe fazia (embora eu não gostasse do açúcar queimado que ela punha ao fundo). Mas nada é maior que a salada de frutas da minha avó. Nada. Lembrei disso enquanto deglutia o simples, porém substancioso manjar de vovó, deixado à geladeira em um recipiente plástico, a me esperar chegar da Academia, do Liceu, do templo do saber, ou só de mais uma aula depois de um dia de cansaço.

Não sei bem dizer ao certo o que me agrada: seria o ácido das frutas cítricas? Ou o adocicado da combinação? Ou a combinação de frutose açucarada?

Acho que encontrei a resposta, depois de tantos anos passados comendo essa mescla vegetal: em tão simples garafunchos, ao chegar à porta para entrar em casa, vejo uma ponta de papel a sair pela fresta, em que se lê, assim como consta:

“Porto Alegre, 25 do 8 = 2008

Oi Samuel

Só para ledizer

Há uma salada

De fruta

Na jeladeira

No plastico

Braquo

Ta



Eva”


É o carinho da matriarca que dá gosto! São suas lágrimas de preocupação por duas gerações que viu passar que lhe dão a acidez, mas é seu amor que adoça esses cubinhos de maçã.

Não esquecerei disso. Prometo a mim mesmo: bendirei ao Senhor meu Deus, enquanto houver frutas em algum pomar, que houve, há e haverá avós que amam demais, mesmo vendo os netos-doutores como seus queridos pimpolhos.

Saúde a quem amamos!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Irremediavelmente humano

Andando há quatro anos no mesmo itinerário e empregando o metrô como meu veículo de transporte, posso dizer que sou mais que um usuário, mas parte integrante. Estudo, escrevo, converso, durmo, como e faço dos 30min da minha viagem um período produtivo para mim mesmo.

Uma das coisas que mais gosto de fazer é fitar os olhos dos meus parceiros de viagem. Uns, bem arrumados, optaram – assim como eu optei – usar uma locomoção barata, prática e sem congestionamentos; outros, de condição bastante humilde, rumam a seus afazeres. Namorados, amigos, famílias, colegas de trabalho, toda a sorte de pessoas são encontráveis nos vagões do trem urbano. É bom ver pessoas, cada uma com sua fagulha pessoal e intransferível, que lhe tornam muito mais que um ente, mas uma essência ambulante. Isso nos põe num pé de igualdade com os demais e nos faz ver a que espécie o Criador Excelso nos adequou.

Contudo, nada me dói mais que o polinômio pobreza-mentira-necessidade-comércio. Costumo ser tolerante às circunstâncias, sou irremediavelmente humano, mas há algumas me comovem de modo tão negativo que não sei dizer o que sinto precisamente, tamanho o misto de tristeza, indignação e revolta. A exploração da boa-fé e da comiseração é a exploração da piedade de pessoas comuns, apenas travestidas de funcionários, estudantes ou aposentados.

Há quatro anos, vi uma senhora e muito me compadeci dela. Trazia três crianças pequenas consigo, sendo que uma lhe estava ao colo. O marido a abandonou, deixou um trio de bocas a sustentar e as contas a pagar. Como não se compadecer de uma criatura dessas, com um menino pequeno, de uns 5 ou 6 anos, carregado pela mão por sua maninha de, quiçá, uns 8 anos, e mais uma criancinha nos braços?

Em outras oportunidade, encontrei a menininha, já pré-adolescente, trazendo o irmãozinho que ela cuidava, ostentando dois piercings, um ao nariz, e outro, ao umbigo, projetado para frente por uma pança inconveniente. Já vi também a mulher sozinha, com o guri e também com a sua suposta primogênita, inclusive xingando-a por não oferecer a todos as balas de goma que mercadeja.

Isso não é das melhores coisas, mas precisam, certo?

Vi-a hoje, não mais acompanhada de um menino que, hoje, teria uns 8 ou 9 anos, mas novamente com um de possíveis 4 anos. O bebê de colo. O que mais me incomodou: ela está grávida.

Quero continuar acreditando na humanidade. Alguém, por favor, ajude-me a entender isso e não me tornar um monstro inconsciente da importância da vida em grupo.

“Você pode tirar o homem do caminho, mas não o caminho do homem.” Confúcio.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Divagações patéticas - O ataque dos monstros voadores

Porto Alegre, início de uma manhã fria qualquer: Samuel Aguiar da Cunha, empunhando uma pasta preta e vestido de terno escuro, ruma em cadência vigorosa do transporte seletivo (“lotação”; Porto Alegre é a única capital do país com esse tipo de serviço atuando de forma legal) à estação de metrô (aqui conhecida pelo nome da empresa, “Trensurb”). Tem de atravessar o Paço Municipal, lugar do Prefeito, das ciganas que lêem “la suerte” nas mãos e da fonte Talavera de La Reina (hoje, em reformas, com tapumes que ocupam um quarto da área em frente ao prédio).

Tarefa habitual, caminhada habitual, rumo habitual (Samuel é trabalhador – ao menos, ele crê que seja). Do nada, aparece uma cidadã. A mulher se materializou ali, junto ao meio-fio lateral da quadra. Do nada. Ela, guarnecida de um saco de milho. Milho que não foi plantado, materializado junto com ela. Um punhado muito grande é tomado. A mulher devia ter a mão do tamanho da de uma luva de baseball. O milho voa, subindo e descendo graciosamente, qual uma coberta branca de um quarto de casa de férias. Não houve pressa por parte da gravidade em derrubar aquele milho no chão: os grãos foram subindo e, quando quiseram, vieram ao chão, deixando no ar aquele olor de canjica.

Sim, olor de canjica. Esse era o olor que vinha.

A mulher, assim como se materializou, se desmaterializou. Ela, apenas. Seu saco de pipoca ficou ali, exposto naqueles dois metros quadrados para umas pombinhas simpáticas, dessas que ciscam entre baganas de cigarro e pedras de calçamento dos bairros, que levamos junto ao centro da cidade (pois elas se apegam aos nossos pés, nos vincos dos sapatos, de modo muito mais incisivo que as crianças em nossa perna; a diferença entre elas é que você pode fugir das crianças). Pombinhas poucas, simples.

O olor de canjica se propala no ar do continente, e as pombas se levantam dos arcanos do supraempírico. As cinco ou seis que ali comiam se viram rapidamente recebendo visitas: “amor, come logo que as pombas do Lami estão vindo comer conosco”. O céu, de uma cor clara e tranqüila se torna escurecido, com ondas e ondas dessas avezinhas não mais adoráveis: traziam em seus singelos bicos a avidez pela comida olfatada, enviada por uma entidade mítica (qualquer uma, de Afrodite a Exu Caveira; um consórcio de entidades, talvez).

Estou no meio do trajeto entre a velha e o alimento. Não sou mais o narrador que avista distante e que relata na terceira pessoa do singular. Sim, estou, sou eu o protagonista, não estou mais “no piloto automático” a caminho do serviço.

Não são mais meras revoadas: são nuvens, enxames, manadas, todas elas rumando ao que estava a cinqüenta centímetros de mim. Temi por minha vida.

Tive de me abaixar, correr, sacudir-me, esquivar-me. Agia, naquele meio minuto como um lutador de boxe, de Tele Catch, do Ringue 12, mas sem bater em ninguém. O olor do milho já era fedor de pombo. Muitos, e com estratégicos detritos fecais caindo, continuavam por cima de mim, que estava atarantado, com uma pasta na cabeça, com uma situação inusitada, com um horário pra lá de apertado aos compromissos.

Hoje, meia semana se passou daquela oportunidade; continuo, porém, sentindo “o odor deletério”. Juro solenemente não mais comer frango à passarinha. E advirto: nunca (NUNCA) saia de casa (NUNCA SAIA DE CASA) sem uma armadura medieval. Você nunca saberá quando poderá ser atacado.

PS.: fui atingido pelos pombos, sim. Doeu. Acho que estou com síndrome do pânico (ou, ao menos, com columbofobia).

O FIM!

(nojento - tchã!)

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Para reflexão

Precisamos de Santos sem véu ou batina. Precisamos de Santos de calças jeans e tênis Precisamos de Santos que vão cinema, ouvem música e passeiam com os amigos. Precisamos de Santos que coloquem Deus em primeiro lugar, mas que se “lascam” na faculdade. Precisamos de Santos que tenham tempo todo dia para rezar e que saibam namorar na pureza e castidade, ou que consagrem sua castidade. Precisamos de Santos modernos, Santos do século XXI com uma espiritualidade inserida em nosso tempo. Precisamos de Santos comprometidos com os pobres e as necessárias mudanças sociais. Precisamos de Santos que vivam no mundo, se santifiquem no mundo, que não tenham medo de viver no mundo. Precisamos de Santos que bebam Coca-Cola e comam hot dog, que usem jeans, que sejam internautas, que escutem discman. Precisamos de Santos que amem a Eucaristia e que não tenham vergonha de tomar um refri ou comer pizza no fim-de-semana com os amigos. Precisamos de santos. (WOJTYLA, Karol – o Papa João Paulo II).