Certamente, miserável é a condição de todas as pessoas ocupadas, mas ainda mais miserável a daqueles que sobrecarregam a sua vida de cuidados que não são para si, esperando, para dormir, o sono dos outros, para comer, que outro tenha apetite, que caminham segundo o passo dos outros e que estão sob as ordens deles nas coisas que são as mais espontâneas de todas – amar e odiar. Se desejam saber quão breve é a sua vida, que calculem quão exígua é a parte que lhes toca.
(Lucius Annaeus Seneca, De brevitate vitae)
domingo, 23 de março de 2008
quarta-feira, 19 de março de 2008
Verão
A Praia
(Luiz vernando Veríssimo)
Chegou o verão e com ele também chegam os pedágios, os congestionamentos na estrada, os bichos geográficos no pé e a empregada cobrando hora-extra.
Verão também é sinônimo de pouca roupa e muito chifre, pouca cintura e muita gordura, pouco trabalho e muita micose.
Verão é picolé de Ki-suco no palito reciclado, é milho cozido na água da torneira, é coco verde aberto pra comer a gosminha branca. Verão é prisão de ventre de uma semana e pé inchado que não entra no tênis. Mas o principal, o ponto alto do verão é...a praia!! Ah, como é bela a praia! Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam pra fazer coleção.
Os casais jogam frescobol e acertam a bolinha na cabeça das véias.
Os jovens de jet ski atropelam os surfistas, que por sua vez, miram a prancha pra abrir a cabeça dos banhistas.
O melhor programa pra quem vai à praia é chegar bem cedo, antes do sorveteiro, quando o sol ainda está fraco e as famílias estao chegando. Muito bonito ver aquelas pessoas carregando vinte cadeiras, três geladeiras de isopor, cinco guarda-sóis, raquete, frango, farofa, toalha, bola, balde, chapéu e prancha, acreditando que estão de férias.
Em menos de cinqüenta minutos, todos já estão instalados, besuntados e prontos pra enterrar a avó na areia.
E as crianças? Ah, que gracinha! Os bebês chorando de desidratação, as crianças pequenas se socando por uma conchinha do mar, os adolescentes ouvindo walkman enquanto dormem.
As mulheres também têm muita diversão na praia, como buscar o filho afogado e caminhar vinte quilômetros pra encontrar o outro pé do chinelo. Já os homens ficam com as tarefas mais chatas, como perfurar um poço pra fincar o cabo do guarda-sol. É mais fácil achar petróleo do que conseguir fazer o guarda-sol ficar em pé.
Mas tudo isso não conta, diante da alegria, da felicidade, da maravilha que é entrar no mar!Aquela água tão cristalina, que dá pra ver os cardumes de latinha de cerveja no fundo.
Aquela sensação de boiar na salmoura como um pepino em conserva.
Depois de um belo banho de mar, com o rego cheio de sal e a periquita cheia de areia, vem aquela vontade de fritar na chapa. A gente abre esteira velha, com cheiro de velório de bode, bota o chapéu, os óculos escuros puxa um ronco bacaninha. Isso é paz, isso é amor, isso é o absurdo do calor. Mas, claro, tudo tem seu lado bom.
E à noite o sol vai embora. Todo mundo volta pra casa tostado e vermelho como mortadela, toma banho e deixa o sabonete cheio de areia pro próximo. O shampoo acaba e a gente acaba lavando a cabeça com qualquer coisa, desde o creme de barbear até desinfetante de privada.
As toalhas, com aquele cheirinho de mofo que só a casa de praia oferece.
Aí, uma bela macarronada pra entupir o bucho e uma dormidinha na rede pra adquirir um bom torcicolo e ralar as costas queimadas.
O dia termina com uma boa rodada de tranca e uma briga em família.
Todo mundo vai dormir bêbado e emburrado, babando na fronha e torcendo, pra que na manhã seguinte, faça aquele sol e todo mundo possa se encontrar no mesmo inferno tropical... Qualquer semelhança com a vida real, é uma mera coincidência..``
+ * + * +
Adeus, verão. Encontro-o no próximo ano.
Saúde, força e união!
(Luiz vernando Veríssimo)
Chegou o verão e com ele também chegam os pedágios, os congestionamentos na estrada, os bichos geográficos no pé e a empregada cobrando hora-extra.
Verão também é sinônimo de pouca roupa e muito chifre, pouca cintura e muita gordura, pouco trabalho e muita micose.
Verão é picolé de Ki-suco no palito reciclado, é milho cozido na água da torneira, é coco verde aberto pra comer a gosminha branca. Verão é prisão de ventre de uma semana e pé inchado que não entra no tênis. Mas o principal, o ponto alto do verão é...a praia!! Ah, como é bela a praia! Os cachorros fazem cocô e as crianças pegam pra fazer coleção.
Os casais jogam frescobol e acertam a bolinha na cabeça das véias.
Os jovens de jet ski atropelam os surfistas, que por sua vez, miram a prancha pra abrir a cabeça dos banhistas.
O melhor programa pra quem vai à praia é chegar bem cedo, antes do sorveteiro, quando o sol ainda está fraco e as famílias estao chegando. Muito bonito ver aquelas pessoas carregando vinte cadeiras, três geladeiras de isopor, cinco guarda-sóis, raquete, frango, farofa, toalha, bola, balde, chapéu e prancha, acreditando que estão de férias.
Em menos de cinqüenta minutos, todos já estão instalados, besuntados e prontos pra enterrar a avó na areia.
E as crianças? Ah, que gracinha! Os bebês chorando de desidratação, as crianças pequenas se socando por uma conchinha do mar, os adolescentes ouvindo walkman enquanto dormem.
As mulheres também têm muita diversão na praia, como buscar o filho afogado e caminhar vinte quilômetros pra encontrar o outro pé do chinelo. Já os homens ficam com as tarefas mais chatas, como perfurar um poço pra fincar o cabo do guarda-sol. É mais fácil achar petróleo do que conseguir fazer o guarda-sol ficar em pé.
Mas tudo isso não conta, diante da alegria, da felicidade, da maravilha que é entrar no mar!Aquela água tão cristalina, que dá pra ver os cardumes de latinha de cerveja no fundo.
Aquela sensação de boiar na salmoura como um pepino em conserva.
Depois de um belo banho de mar, com o rego cheio de sal e a periquita cheia de areia, vem aquela vontade de fritar na chapa. A gente abre esteira velha, com cheiro de velório de bode, bota o chapéu, os óculos escuros puxa um ronco bacaninha. Isso é paz, isso é amor, isso é o absurdo do calor. Mas, claro, tudo tem seu lado bom.
E à noite o sol vai embora. Todo mundo volta pra casa tostado e vermelho como mortadela, toma banho e deixa o sabonete cheio de areia pro próximo. O shampoo acaba e a gente acaba lavando a cabeça com qualquer coisa, desde o creme de barbear até desinfetante de privada.
As toalhas, com aquele cheirinho de mofo que só a casa de praia oferece.
Aí, uma bela macarronada pra entupir o bucho e uma dormidinha na rede pra adquirir um bom torcicolo e ralar as costas queimadas.
O dia termina com uma boa rodada de tranca e uma briga em família.
Todo mundo vai dormir bêbado e emburrado, babando na fronha e torcendo, pra que na manhã seguinte, faça aquele sol e todo mundo possa se encontrar no mesmo inferno tropical... Qualquer semelhança com a vida real, é uma mera coincidência..``
+ * + * +
Adeus, verão. Encontro-o no próximo ano.
Saúde, força e união!
quinta-feira, 6 de março de 2008
Crônicas da menorréia: o intróito

Hoje pela manhã, falava trivialidades com uma amiga que muito estimo. Ao me contar suas novas, relatou-me que iniciara um blog e, empolgada, contou-me que colocou no ar um conto de fadas, com direito a príncipes e gatos brancos. Se não me engano, é isso (não pretendo conferir agora: estou escrevendo no trem e não há modo de me conectar à blogosfera agora).
Enfim, achei muito bonitinho. Sim, bonitinho, simpatiquinho, meiguinho, um amorzinho. Aliás, coisas de mulheres são sempre pequeninas. Só não gostam quando o orçamento do amorzinho (e outras coisinhas mais) são pequeninos. Que contra-senso, não?
Fiquei a pensar: mulheres gostam, em qualquer fase da vida, de contos de fadas, com direito a príncipe em cavalgadura, espada na bainha, beleza no rosto. Quanta fantasia! Por que isso?
Num rompante literário (ou, ao menos, num rompante de indignação), lanço aqui as Crônicas da Menorréia. Explico os porquês:
1. Contos de fadas são agradáveis, ideais e com pessoas bonitas, em peles alvas e olhos cintilantes. A vida não é assim: as princesas frígidas, os príncipes pobres, as montarias sem gasolina e sem capacete atentam contra o sonho. Eu ainda creio no poder da esperança: esperar um amigo que divide a sala de aula e que lhe saúda chamando de herdeiro da meretriz (e que você até sente falta dessas saudações, por mais incrível que pareça, quando não se pode dividir por um dia os saberes acadêmicos e as vicissitudes do respirar), fazer as refeições regulares com horas de atraso tão somente pelo prazer de encontrar a namorada (que está ansiosa para contar a cor de tinta de cabelo que comprou) ou comprar uma bala de goma de um menino pobre que venda na rua. Isso me torna um humano de verdade.
Nosso céu tem mais fumaça, nossas várzeas têm mais lixo, nossos bosques têm menos vida, e nossa vida, menos amores. Por quê? Porque não queremos amar a vida como é; queremos uma princesa estereotipada, e quando encontramos o que julgamos ser essa “princesa”, não nos vemos aptos a tocá-la. Como entender isso?
Creio que nossas princesas, hoje em dia, sentem cólicas, usam aparelho, preferem não usar óculos e ficarem apertando os olhos para ler, pintam os cabelos de grená e não ouvem mais orquestras de câmara em suas salas. Mesmo assim, há princesas: são seres encantadores, que queremos que brilhem do nosso lado, e que fariam tudo para serem felizes (inclusive ver como “príncipe” um barrigudo, feio, espinhento, mulherengo, vagabundo ou qualquer outro atributo que achemos desagradável). Com certeza, o beijo delas nos enobrece e nos tira da condição de anuro; mas não se iludam: depois de algum tempo, elas também começam a coaxar...!
2. Contos de fadas são representações do bem e do mal, e só há bem no casal e naqueles que contribuam para que fiquem juntos. Não vejo assim, e talvez considere exatamente o oposto: o que promove a distância pode muito bem ser motivo para aproximar. Só depende do casal estar disposto. Ou seja, dormir um pouco mais tarde para ficar no MSN, acordar mais cedo e despertar o amado com um toque de celular, arranjar a agenda para que possam fazer coisas juntos, tudo isso pode contribuir muito para se ter mais do que falar. Fofocas, discussões, briguinhas, quem não as têm? Felizes são os que as superam.
3. Contos de fadas obrigam o menino e a menina a ficarem juntos. Será que isso é sempre viável? Acho que vou escrever um “conto de bruxas”, contando exatamente o contrário: o príncipe chulezento e a princesa que ronca ao dormir vêem que serão felizes se amando, mas não necessariamente unidos pelos sagrados laços do matrimônio.
Às vezes, nosssas almas gêmeas são os parceiros etílicos, os colegas de trabalho e a pessoa que senta faz o supino no aparelho ao lado. Note-se: creio que a alma gêmea não é obrigatoriamente o reflexo da conjunção carnal. Bastam duas pessoas. É suficiente.
É isso. Aguardem as crônicas e os contos. Virão, prometo. Se eu não os escrever, certamente a vida se encarregará de contá-los.
+ * + * +
Aos meus reais amigos, a quem amo como irmãos, minha lembrança afetuosa. Aos de perto, prometo me dedicar a procurá-los mais; aos de longe, prometo nunca lembrar de vocês em minhas orações.
Saúde, força e união!
sábado, 1 de março de 2008
Essa tal isonomia...!
Já pensei seriamente em ser policial militar (brigadiano, como se diz no Rio Grande do Sul). Admito, não sonhei em participar de policiamento ostensivo, mas em ser oficial, usar paletó, sei lá. Acho interessante o trabalho desses homens que, com garra e dedicação (e propina, às vezes), defendem a população com bravura e destemor (e propina, às vezes).
Ontem, saí de casa à noite, em direção ao centro da capital dos gaúchos. No meio do caminho trilhado à pé, ouço a ordem “ô, magrão”. Fiz-me de desentendido: estava de mochila às costas (com meu bom e velho laptop), e não gostaria de vê-lo às mãos de um amigo do alheio. Como houve repetição da invocação, lancei olhar de soslaio de onde me chamavam: um carro, com quatro homens; em seguida, vi o letreiro “POE” na porta. “Mão para cima!” foi o imperativo; a inércia, minha reação. Não é muito comum para mim ser abordado pela polícia (embora já haja acontecido umas vezes, umas com a tradicional mochila).
Durante revista, creio que notaram minha “boa índole” e questionaram de onde vinha, e, incontinenti, dei minhas referências. Mostrei documentação: a Carteira da OAB! Fui chamado de Doutor, explicaram-me os procedimentos (que, particularmente, entendo e consinto; quem não deve, não teme) e me deram carona até meu destino!
Será que eles me tratariam assim se eu tivesse outro tom de pele ou estivesse mal vestido? Não sei, mas começo a desconfiar que todos somos iguais apenas perante a lei...
Saúde, força e união!
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Alguém entende o por quê?

Alguém pode me explicar por que aqui, em boa parcela dos shoppings da região metropolitana de Porto Alegre, os banhos masculinos são mais difíceis de acessar? Subir escada, caminhar mais um pouco, passar por corredores, por que para nós, varões? Por que não para as mulheres, justamente elas, que vão em grupo e metade não usa efetivamente o sanitário?
Senhoras e senhoritas, se vocês acham que dá para dar um nozinho no piu-piu para “se segurar”, estão muito enganadas. Assim, registro minha inconformidade: isonomia na acessibilidade aos banheiros públicos! Machos do Brasil, uni-vos!
Saúde, força e união!
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Dominantes, às ordens!

Em meu trabalho, além de lidar com um público seleto (atendimento de políticos e outras pessoas de importância), converso com muitas simples; além disso, comando os eventos da minha instituição, realizando as formalidades protocolares, apresentando e instruindo quais os procedimentos. Assim, sou mestre-de-cerimônias de formaturas, palestras, apresentações e todo o tipo de H necessário a bem representar a instituição.
Lidar com todas as pessoas e transitar bem acaba sendo uma virtude minha; admito, não tenho a melhor das penetrações, mas faço empenho para isso, e acabo vendo a resposta: meus superiores e "os tubarões" que recebo demonstram certa admiração pela minha atividade, e os demais que me assistem, em alguns casos, me elevam à condição de astro pop.
É estranho isso. Acabo visto, e tenho consciência disso, como um alienígena, um herói ou uma figura distante. Sou bem igual a todos os outros, com uma habilidade: falar em público. Quanto ao mais, sou extremamente normal, talvez até mais normal que os demais.
Mas, enfim, enquanto fico com o estigma de super-qualquer-coisa, vou-me dar risada da minha condição sobrenatural: dominantes, às ordens!
Saúde, força e união!
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Casos de lanterninha
(por mais difícil que pareça, este relato é real e aconteceu comigo em 21/02/2008)
+ * + * +
Fui ao cinema. Mais uma vez, como sempre faço, empurro minha pesada carcaça em direção à fila da bilheteria, guarnecido de uma mochila com dois laptops, um cartão magnético e uma barriga semelhante à de uma criança com verminose.
Era uma quinta-feira, ainda do período de férias estudantis. Para completar o chamariz aos discentes (estudante que preze os carcarás minguados só vai no meio da semana e com carteirinha pra filar desconto), havia uma promoção que me causa algum embaraço: beijar na frente da bilheteria faz com que o casal pague apenas uma entrada. Por conseguinte, junte preço baixo, desconto, “pegação” e meio de semana: eis uma fila repleta de acne, ferormônios e cochichos ao pé da orelha.
Estava só. Filme? Meu nome não é Johnny. Enfim, depois de uma boa fila, cheguei diante de uma moça que, diante da tarefa de procuradora de Eros e Dioniso, nem dava mais bola pra nada: mesmo desacompanhado, ela me perguntou “promoção do beijo?”; não perdi a oportunidade: “você quer?”. Acho que ela não gosta de rapazes de aparelho: apenas ouvi “nove reais”. Droga de vida. Nem queria desconto, mesmo...!
Enquanto estava aguardando minha vez ao guichê, dei uma olhadinha pra trás. Fiquei vendo os casais, as famílias, os jovens namorados, os pares homossexuais, as meninas desacompanhadas, e eu ali, só. Fazer o quê? Posso ser feio, chato e pobre, mas não sou daqueles que fica catando garota pra ganhar desconto no cinema. Mesmo assim, contemplei com perplexidade como é lindo o amor... meninas com cara de abestalhadas olhando para seus namorados, que olhavam... a bunda das namoradas dos outros! Não perdoam nem a época de Quaresma pra ficar cobiçando a mulher do próximo! Se bem que a fila estava tão grande que, se eu cobiçasse a moça lá da ponta logo que eu cheguei, nem daria pra taxar como “pecado”...!
Após minha análise criteriosa de todos os cidadãos dispostos alinhadamente (ou quase isso), comecei a prestar atenção nas interjeições dos casais. Ouvi desde “não me atrapalha com essa tua mão boba!” até “será que aquele guri de mochila é viado (sic)? Hoje é ‘dia do beijo’ e ele está sozinho!”. Não resisti e dirigi o olhar: um rapaz pseudoariano, com uma moça muito bonita, de pernas compridas (daquelas que não dá graça de brincar de amarelinha) e trajes mínimos. Não dei atenção: procrastinei a vingança e tergiversei. “Tua hora chega, bobalhão, palhaço”, e mentalizei meu pai dando um dos seus tradicionais carinhos na nuca daquele cidadão (registre-se: nas brincadeiras do véio, afundar moleira é “cheirinho”!).
Fui à fila da bombonière pegar pipoca. Embora não deva, como pipoca, sem deixar de constar um cuidado extremo aos brackets. Pois então, pedi o “combo grande” (composto de um saco de uns dois palmos de milho estourado e um copo com 900ml de refrigerante). A morena clara do nazista comentou, em um intelectual rompante de jumentice: “ele tem que estar com alguém; olhe o tamanho da pipoca dele!”. Comecei a ouvir a torcida do Flamengo gritar no fundo das minhas entranhas “Ó lambisgóia, pode esperar / a tua hora vai chegar...”, enquanto dava licença a mais um casalzinho com cara de abestado (principalmente o cara, que não notava a menina dele rebolando, para desespero dos outros rapazes à nossa retaguarda).
Abrindo um parêntese, comento uma peculiaridade da minha personalidade: sou um rapaz pacato e, embora seja sisudo, não sou mau. Não desejo o mal a ninguém, não odeio ninguém e nem quero ver nenhum inimigo morto, pois não fiz nenhum nessa minha curta vida. Contudo, naquela noite, meus instintos mais primitivos me fizeram invocar as energias mais vis e sórdidas contra aqueles cidadãos. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”, dizia minha caridosa alma cristã; mas também sou “um Aguiar”, diria meu pai, e orava, “Pai, não permita que minha mão se machuque se eu der na cara desse chinelão!”. A vingança pertence a Deus. Contudo, não sabia que ele havia passado um mandato para um utensílio realizar justiça. Seja louvado!
“Se aproveitam, de minha nobreza”, como diz o honorável Polegar Vermelho, e preciso procurar um lugar na sala de projeção. Sala íngreme, dois laptops nas costas, pipoca, refrigerante, casaizinhos apaixonados aguardando a luz apagar para começar a pouca-vergonha (que, acreditem, existe...!). Não fiquei num lugar muito privilegiado, mas “numa escala de ‘zero’ a ‘dez’, em que ‘zero’ significa ‘lugar pouquíssimo privilegiado’ e ‘dez’ significa ‘lugar muitíssimo privilegiado’”, minha nota para aquele ponto era 7,49. Instalei-me, eu, minha barriga de criança com verminose e meus apetrechos, a saber, uma mochila com dois laptops, um saco imenso com pipocas e quase um litro de refrigerante, numa poltrona próxima às laterais do local. Distava umas quatro ou cinco cadeiras da parede, outras tanto de um casal com um rapaz que conversava em iídiche (e comecei a temer pelo menino; judeus deveriam resguardar suas origens ao menos por medo desses pseudoarianos, como esse que visualizara há pouco. Entre risos desbragados e ao som da Ciranda da Bailarina, entra o representante hitlerista e a representante asinina com restrições mentais.
Deus sabe: nada fiz de propósito.
Como sou um rapaz com uma sorte “mais grande que braço de cobra”, fui escolhido pelo “alemão” e pela “gostosa” para ter os joelhos puídos pelo pouco espaço por onde eles passarariam. Antes, eu já havia posto a mochila (aquela, a dois laptops) à esquerda. Momentos tensos começam a ocorrer: o judeuzinho notou quem se dirigia em sua direção e empalideceu. Eu agüentei firme, deixando a mula e a piranha passarem. De repente, minha mochila foi usada pelo Grande Arquiteto do Universo como instrumento da justiça: a roda do destino gira de modo imprevisto, de modo que, naquele momento, vi-a percorrer seu movimento circular uniformemente variado, em desaceleração, parando em desfavor do deutsch: o rapaz deu um tropeção na mochila (sabe a que me refiro?), prostrando-se em terra o golias da SS, com pipoca, refrigerante, saco de balas e alguns confeitos de chocolate, fora que a queda foi tão fragorosa, tão grotesca, tão estrogonófica, tão mediogáivel, tão batráquia, tão inoxidável (quero dizer brilhante), que acabou batendo com os calcanhares na rapariga, que acabou tombando às fileiras da frente, com o rosto voltado à bunda de um gordo profissional, daqueles que trabalham de porteiro em loja de $1,99!
O rapaz, sem um dente, sem pipoca, sem bala, sem chocolate, sem refrigerante e com a acompanhante com o rosto introduzido na buzanfa de um respeitável senhor de volumosas qualidades abdominais. Envergonhado com tudo isso, o rato germânico se sentiu obrigado a ir embora. A moça, coitada, estava sem calcinha, e a saia plissada foi pra galera, dando uma aula de ginecologia para umas 150 pessoas, com direito a piercing genital e depilação completa. Um exemplar de colecionador!
Nessas e outras horas, eu digo: “vai rindo, bobalhão, palhaço”. Essas são as palavras mágicas que meu pai sempre me disse antes do cascudo. Hoje, eu apenas as digo: deixo que o destino conspire em meu favor.
Aqui fica meu recado: nunca julgue a aparência; talvez, o fim do seu casamento seja o cabeleireiro bichona que a-do-ra passar a mão no rostinho da sua senhora. E cuidado: Deus não mata, mas que dá uns cagaços nos vacilões, ninguém duvida!
Saúde, força e união!
PS.: por remorso, estou pensando em fazer uma vaquinha e dar um dente pro loirinho Alguém me ajuda?
PS.²: se alguém der uma calcinha pra menina, vai levar as minhas palavras de maldição; você se arrisca?
+ * + * +
Fui ao cinema. Mais uma vez, como sempre faço, empurro minha pesada carcaça em direção à fila da bilheteria, guarnecido de uma mochila com dois laptops, um cartão magnético e uma barriga semelhante à de uma criança com verminose.
Era uma quinta-feira, ainda do período de férias estudantis. Para completar o chamariz aos discentes (estudante que preze os carcarás minguados só vai no meio da semana e com carteirinha pra filar desconto), havia uma promoção que me causa algum embaraço: beijar na frente da bilheteria faz com que o casal pague apenas uma entrada. Por conseguinte, junte preço baixo, desconto, “pegação” e meio de semana: eis uma fila repleta de acne, ferormônios e cochichos ao pé da orelha.
Estava só. Filme? Meu nome não é Johnny. Enfim, depois de uma boa fila, cheguei diante de uma moça que, diante da tarefa de procuradora de Eros e Dioniso, nem dava mais bola pra nada: mesmo desacompanhado, ela me perguntou “promoção do beijo?”; não perdi a oportunidade: “você quer?”. Acho que ela não gosta de rapazes de aparelho: apenas ouvi “nove reais”. Droga de vida. Nem queria desconto, mesmo...!
Enquanto estava aguardando minha vez ao guichê, dei uma olhadinha pra trás. Fiquei vendo os casais, as famílias, os jovens namorados, os pares homossexuais, as meninas desacompanhadas, e eu ali, só. Fazer o quê? Posso ser feio, chato e pobre, mas não sou daqueles que fica catando garota pra ganhar desconto no cinema. Mesmo assim, contemplei com perplexidade como é lindo o amor... meninas com cara de abestalhadas olhando para seus namorados, que olhavam... a bunda das namoradas dos outros! Não perdoam nem a época de Quaresma pra ficar cobiçando a mulher do próximo! Se bem que a fila estava tão grande que, se eu cobiçasse a moça lá da ponta logo que eu cheguei, nem daria pra taxar como “pecado”...!
Após minha análise criteriosa de todos os cidadãos dispostos alinhadamente (ou quase isso), comecei a prestar atenção nas interjeições dos casais. Ouvi desde “não me atrapalha com essa tua mão boba!” até “será que aquele guri de mochila é viado (sic)? Hoje é ‘dia do beijo’ e ele está sozinho!”. Não resisti e dirigi o olhar: um rapaz pseudoariano, com uma moça muito bonita, de pernas compridas (daquelas que não dá graça de brincar de amarelinha) e trajes mínimos. Não dei atenção: procrastinei a vingança e tergiversei. “Tua hora chega, bobalhão, palhaço”, e mentalizei meu pai dando um dos seus tradicionais carinhos na nuca daquele cidadão (registre-se: nas brincadeiras do véio, afundar moleira é “cheirinho”!).
Fui à fila da bombonière pegar pipoca. Embora não deva, como pipoca, sem deixar de constar um cuidado extremo aos brackets. Pois então, pedi o “combo grande” (composto de um saco de uns dois palmos de milho estourado e um copo com 900ml de refrigerante). A morena clara do nazista comentou, em um intelectual rompante de jumentice: “ele tem que estar com alguém; olhe o tamanho da pipoca dele!”. Comecei a ouvir a torcida do Flamengo gritar no fundo das minhas entranhas “Ó lambisgóia, pode esperar / a tua hora vai chegar...”, enquanto dava licença a mais um casalzinho com cara de abestado (principalmente o cara, que não notava a menina dele rebolando, para desespero dos outros rapazes à nossa retaguarda).
Abrindo um parêntese, comento uma peculiaridade da minha personalidade: sou um rapaz pacato e, embora seja sisudo, não sou mau. Não desejo o mal a ninguém, não odeio ninguém e nem quero ver nenhum inimigo morto, pois não fiz nenhum nessa minha curta vida. Contudo, naquela noite, meus instintos mais primitivos me fizeram invocar as energias mais vis e sórdidas contra aqueles cidadãos. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”, dizia minha caridosa alma cristã; mas também sou “um Aguiar”, diria meu pai, e orava, “Pai, não permita que minha mão se machuque se eu der na cara desse chinelão!”. A vingança pertence a Deus. Contudo, não sabia que ele havia passado um mandato para um utensílio realizar justiça. Seja louvado!
“Se aproveitam, de minha nobreza”, como diz o honorável Polegar Vermelho, e preciso procurar um lugar na sala de projeção. Sala íngreme, dois laptops nas costas, pipoca, refrigerante, casaizinhos apaixonados aguardando a luz apagar para começar a pouca-vergonha (que, acreditem, existe...!). Não fiquei num lugar muito privilegiado, mas “numa escala de ‘zero’ a ‘dez’, em que ‘zero’ significa ‘lugar pouquíssimo privilegiado’ e ‘dez’ significa ‘lugar muitíssimo privilegiado’”, minha nota para aquele ponto era 7,49. Instalei-me, eu, minha barriga de criança com verminose e meus apetrechos, a saber, uma mochila com dois laptops, um saco imenso com pipocas e quase um litro de refrigerante, numa poltrona próxima às laterais do local. Distava umas quatro ou cinco cadeiras da parede, outras tanto de um casal com um rapaz que conversava em iídiche (e comecei a temer pelo menino; judeus deveriam resguardar suas origens ao menos por medo desses pseudoarianos, como esse que visualizara há pouco. Entre risos desbragados e ao som da Ciranda da Bailarina, entra o representante hitlerista e a representante asinina com restrições mentais.
Deus sabe: nada fiz de propósito.
Como sou um rapaz com uma sorte “mais grande que braço de cobra”, fui escolhido pelo “alemão” e pela “gostosa” para ter os joelhos puídos pelo pouco espaço por onde eles passarariam. Antes, eu já havia posto a mochila (aquela, a dois laptops) à esquerda. Momentos tensos começam a ocorrer: o judeuzinho notou quem se dirigia em sua direção e empalideceu. Eu agüentei firme, deixando a mula e a piranha passarem. De repente, minha mochila foi usada pelo Grande Arquiteto do Universo como instrumento da justiça: a roda do destino gira de modo imprevisto, de modo que, naquele momento, vi-a percorrer seu movimento circular uniformemente variado, em desaceleração, parando em desfavor do deutsch: o rapaz deu um tropeção na mochila (sabe a que me refiro?), prostrando-se em terra o golias da SS, com pipoca, refrigerante, saco de balas e alguns confeitos de chocolate, fora que a queda foi tão fragorosa, tão grotesca, tão estrogonófica, tão mediogáivel, tão batráquia, tão inoxidável (quero dizer brilhante), que acabou batendo com os calcanhares na rapariga, que acabou tombando às fileiras da frente, com o rosto voltado à bunda de um gordo profissional, daqueles que trabalham de porteiro em loja de $1,99!
O rapaz, sem um dente, sem pipoca, sem bala, sem chocolate, sem refrigerante e com a acompanhante com o rosto introduzido na buzanfa de um respeitável senhor de volumosas qualidades abdominais. Envergonhado com tudo isso, o rato germânico se sentiu obrigado a ir embora. A moça, coitada, estava sem calcinha, e a saia plissada foi pra galera, dando uma aula de ginecologia para umas 150 pessoas, com direito a piercing genital e depilação completa. Um exemplar de colecionador!
Nessas e outras horas, eu digo: “vai rindo, bobalhão, palhaço”. Essas são as palavras mágicas que meu pai sempre me disse antes do cascudo. Hoje, eu apenas as digo: deixo que o destino conspire em meu favor.
Aqui fica meu recado: nunca julgue a aparência; talvez, o fim do seu casamento seja o cabeleireiro bichona que a-do-ra passar a mão no rostinho da sua senhora. E cuidado: Deus não mata, mas que dá uns cagaços nos vacilões, ninguém duvida!
Saúde, força e união!
PS.: por remorso, estou pensando em fazer uma vaquinha e dar um dente pro loirinho Alguém me ajuda?
PS.²: se alguém der uma calcinha pra menina, vai levar as minhas palavras de maldição; você se arrisca?
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